quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Abre-te Sésamo.

Por Adriana Hernandes.

Saio do trabalho tarde da noite, madrugada já (esses serões ainda me matam) cansado, exausto, pensando somente num banho quente e em me atirar na cama.
Chego ao portão do meu prédio e começo a bater as mãos nos bolsos em busca da minha chave, e o que encontro? Nada.
Bato, rebato e nada dela aparecer. Vasculho a minha pasta como quem procura um tesouro e só encontro os papéis do trabalho, o meu ouro de tolo. Dou uma volta ao redor de mim mesmo, “talvez ela tenha caído” imagino. Mas no meio da minha ciranda lembro que deixei a bendita na mesa da repartição.

Tomado por raiva e impaciência, começo a bater na porta torcendo para que alguém ouça meus apelos. O barulho que ecoa pelo saguão me detém no mesmo instante. Assim como a porta, os moradores que desfrutam do sono dos justos não têm culpa do meu revés.

Penso em ir para a casa de algum amigo, sair à procura de um hotel, me entranhar em algum bar e esperar amanhecer. Mas carrego a expectativa de que alguém do edifício apareça e me abra à porta.
Não quero perder a oportunidade de entrar, já perdi coisas demais por hoje. Resolvo esperar.

Diferente de mim, o tempo não precisa de descanso muito menos de portas abertas para continuar sua função. O relógio já acusa três e meia da manhã e não aparece alma alguma pra me servir de Ali Babá. Nem o porteiro que, desmemoriado como eu, só se lembra de pôr o lixo pra fora por esse horário, nem a morena do quinto andar chegando da estudantina, nem o senhor que sempre assiste à última sessão do cine-teatro, ninguém.

Encosto-me na pilastra ao lado da entrada e me deixo escorregar até o chão. Estaciono lá, sentado, a ver navios, a ver a porta, a não ver ninguém.
Minha esperança recai inteira sobre o feirante do sétimo andar. Seu ofício o obriga a madrugar todos os dias. Mas até ele deve ter tirado sua folga hoje, ou esquecido de dar corda no despertador, traidor.

Permaneço sentado ao lado da entrada, agora pensando em outras portas que teimam em continuar fechadas. Mas a noite é passageira, mais cedo ou mais tarde o “ninguém” dará lugar ao “alguém” e essa porta há de se abrir para mim.
Quisera eu ter a certeza de que todas as portas abrissem assim.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Desabafo de TPM


Por Cristiane Senn.


Preciso organizá-las melhor. Não sei se por cor, tamanho, freqüência de uso. Talvez precise de um armário maior. Porque no fim, sempre me atraso e acabo colocando a errada.
Ontem, por exemplo, peguei aquela mais escura de todas, que só costumava usar há uns bons anos. Acabou que deu tudo errado.
Quer dizer, não deu em nada.
Podia ter colocado esta última, que ainda estou fazendo. Mesmo que inacabada, teria sido melhor (melhor mesmo seria não precisar usar nada, mas este mundo é cheio de pudores hipócritas - e eu, como uma hipócrita competente, acabo usando, como todo mundo).

Malditas máscaras. Um dia boto fogo em todas elas e me apareço em carne viva.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Íris.

Por Vinicius Noronha.

O mundo parece tão frio
E deserto

Nem as melhores metas estão livres de seus pecados
E de suas precauções

E uma pessoa nova surge a cada minuto
Com a receita da perfeição
Com a essência idolatrada

Cada passo dissimula uma incerteza
Que ninguém consegue assumir
Todos se calam
E se calando, não percebem
Que gritam por dentro com a mesma voz
Uma única e bela palavra

Mas não, o sacrifício é sábio
Os corações estão camuflados
E não conseguem mais olhar para os lados

Os desejos silenciam
Não descobriram nenhuma dignidade livre
Os sentidos se isolam
E cada um se torna sua própria prisão

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Calel & Klóvis.

Por Sergio Faria.

Hoje resolvi escrever algumas coisas que tenho que ficar ouvindo do Calel e do Klóvis, respectivamente, meu anjinho e meu diabinho:

Calel: - você não acha que já está passando da hora de você tomar uma atitude na sua vida?

Klóvis: - fica frio chefia! A gente já tamo na metade do ano, deixa isso pro ano que vem! Aí vem o verão e tu toma com gelo! He he he he!

C: - o tempo está passando, as coisas estão se acumulando e você não consegue concluir nem as tarefas mais simples que se propôs a executar e nem as outras que são de extrema importância para o seu crescimento profissional e pessoal.

K: - desencana cara! O que é do homi o bicho num comi! Tu vai conseguir tudo que tu quer mesmo sem correria. Tu é sangue bom e os chegados vão agitando as paradinhas pra ti.

C: - você deve construir seu caminho sozinho pois cada um tem o seu. Não deve ficar na dependência de ninguém porque sua conquista é pessoal. Se tudo der errado a responsabilidade será somente sua e com isso aprenderá muito sobre a vida e seus obstáculos. Mas se tudo correr bem o mérito será todo seu. E o prêmio também!

K: - papo furado! Ninguém consegue nada sozinho! O grande lance é trocar figurinha. Aliás troca-troca sempre é bom!! He he he he!! E se tu se fuder pode botar a culpa nos loki.

C: - você tem o livre arbítrio para escolher o que quer fazer. Entretanto sei que você não é assim e tem plena consciência de suas mazelas. Por isso estou aqui sempre e quero lembrá-lo que nesse momento você não está se esforçando para melhorar sua vida e está fraquejando ao deixar que o desânimo lhe impeça de realizar todos os seus projetos e as mudanças necessárias.

K: - que mané mudança! Quem gosta de mudança é o neném quando tá mijado! Em time que tá ganhando nóis num mexe! Se tu tá feliz desse jeito, fica de boa, meu camarada! Quem que não tem preguiça? Quem que não tem desânimo? É normal, ora bolas! Entra numas de trabalhar demais que tu vai ficar estressado e ter um câncer do brabo! Fica na paz e curte a vida do jeito que tu achar melhor. Pô, coçar o saco não é crime. E nem é pecado!

C: - todos aqui sabem dos seus sonhos e que acredita neles. Nós também acreditamos que você possa realizá-los mas não podemos fazer nenhuma interferência já que você não tem feito a sua parte. Você sabe de seu potencial mas vive adiando a retomada de suas atividades por medo ou insegurança. Sem dúvida que a sua história de vida influencia cada ato seu mas até quando vai deixar que o seu passado interfira no seu futuro?

K: - pô, tu tá com pressa? Se tá então manda bala! A galera toda daqui também já sacou que tu tá com a faca e o queijo na mão e que a hora que tu resolver tu ganha o jogo. Vai nessa que é uma boa, tu vai cumê muita mulé! Mas se tá griladão dá um tempo pra poeira baixar. Fica de frozô mais uma carinha.

C: - porque não volta a anotar seus diários como fazia no passado? Aquilo era importante e lhe auxiliava muito na organização de seus compromissos. Você era bem disciplinado e agora relaxou bastante.

K: - pra quê perder tempo rabiscando os babados que já rolou? Num fode! Quem vive de passado é museu! Vai ver televisão que você ganha mais! Vai pra pracinha tomar um sol e filma a mulherada do teu pedaço batendo perna! Que delícia!

C: - em relação aos seus diários sei que você está bem resolvido sobre esse assunto porque sabe muito bem que a leitura deles daqui há algum tempo vai lhe ajudar muito no auto-conhecimento. Mas lamento que atualmente você esteja tão displiscente e preguiçoso. Você reparou que ficou mais de uma semana sem publicar nada no seu diário virtual?

K: - tá de bob, cumpadi!?! Esse papo de escrever na internet é o maior caô! Num serve pra porra nenhuma! Neguinho fica de recadinho pra lá e pra cá, jogando confete um no outro e num acontece nada de interessante. Se liga, brô!

C: - você nunca mais foi a mesma pessoa depois que entrou nesse mundo virtual. Conheceu pessoas abençoadas que somente com palavras lhe sensibilizaram e lhe ensinaram muita coisa. E apesar do profano, algumas que conheceu pessoalmente também foram importantes para sua evolução.

K: - que lindo tudo isso!! E do escroto que escreve aquelas pérolas maravilhosas pra agitar a galera? E aí mané? Num fica injuriado? Que que tu acha dele ficar queimando teu filme por aí, fazendo a tua caveira a três por quatro? É engraçado? Manda um vírus pra esse fela da puta! Agora vai, reconhece, o bicho é piradão mas tem um puta senso de humor e é inteligente pra cacete, fala aí?!

C: - nessas horas é que fico orgulhoso de você por não se deixar afetar por esssas tentações de seres tão involutivos. Felizmente sabe aproveitar o que existe de melhor nesse mundo virtual porque tem a compreensão de que o que existe de bonito e saudável ali é infinitamente superior as coisas maléficas.

K: - puta que o pariu! Que papinho mais babaca! Isso tudo é conversa pra boi dormir. Quer saber de uma coisa? Já que tu quer ficar nessa merda aqui vai ver um site de putaria que tem coisa bem mais manera pra tu ver. Muito bom! Recomendo!

C: - levanta a cabeça e olha para frente. Não deixe que tudo que acumulou de bom dentro de você se perca ou seja desperdiçado. Aproveita a ociosidade para criar e produzir. Se torne imortal com a sua obra. Volte a escrever seus diários. O virtual deve ser olhado com carinho pois existem algumas pessoas que são especiais para nós que gostam de ler suas idéias. Elas merecem sua consideração e você sabe disso.

K: - colé anjo do caralho! Vai tomar no cú, porra! Vai se fuder! Deixa o cara curtir a vida do jeito dele! Todo mundo sabe que ele não tem nada de santo!

C: - reflita sobre tudo o que foi dito hoje. Quando precisar é só chamar pelo Pai que Ele estára sempre à sua disposição.

K: - blargh!!!

C: - que Deus ti abençoe, meu filho!

domingo, 24 de agosto de 2008

Que comecem os jogos!!!!

Por Daniel Ramos.

Não caros leitores, eu não pirei de vez! Afinal de contas vocês devem estar se perguntando por que diabos eu escrevo um post com um título desses no exato dia em que termina o maior evento esportivo do mundo. E deixo claro também que não tratarei aqui das para-olimpíadas, prestes a se iniciarem. O jogo ao qual me refiro é um que está na sua aurora, porém ficou meio ofuscado nas últimas semanas: O jogo político!
Calma, não pretendo aqui fazer um texto de revolta, partidário a alguma causa, nem tampouco fazer propaganda para algum candidato específico, até mesmo porque eu nem acompanho a vida política do país de forma acintosa para que possa escrever algo coeso e embasado. Porém, com a graça do nosso bom criador, eu fui agraciado com dois olhos que enxergam além do óbvio e dois ouvidos que fazem uma conexão direta com minha maldita boca, a qual não consigo calar nem mesmo nos momentos mais inoportunos. E é com essas ferramentas que tenho observado o que acontece nessa época eleição. Não vou cair no lugar comum e explanar sobre as táticas de santinhos e afins, mas sim a um fato que ao meu ver vem aumentando nas últimas eleições. Noto que nas eleições, para prefeitura principalmente, está havendo um crescente número de candidatos pouco convencionais, daqueles que você não consegue imaginar colocando um terno e possuindo um gabinete na câmara dos vereadores, quanto mais discutindo e elaborando leis que venham ao encontro da população votante. Contrariando as leis imaginadas por Platão, nas quais em uma sociedade utópica, a justiça seria que cada um fizesse o que lhe é cabido e a política deveria ser praticada por aqueles realmente aptos a fazê-la. Mas não é o que tenho visto já a algum tempo nas eleições. Você leitor, em sua mais elevada parcela de consciência, votaria em um candidato chamado CARABINA? JORGE DO CEMITÉRIO, que faz propaganda na mesma perua que transporta os cadáveres e que na última eleição obteve apenas um voto...E NÃO FOI O DELE! Ou seja, nem o próprio candidato acredita nele. E o que dizer de nomes como JAPONÊS DO FUNK, SUELI MACARRÃO e TONINHO DA MERCEÁRIA; esse último com o convidativo slogan “eu odeio gente chique, eu não uso sapato”(???!!!). Por mim eu mudaria a frase para “eu odeio gente chique, eu não uso sapato e recebo minhas informações de um gorila azul com asas que fica no meu ombro”. Ficaria mais a cara dele. Enfim, é a liga da justiça dos candidatos cretinos!
Mas é claro que muitos deles acabam entrando, por dois principais motivos: o primeiro é o bom humor típico do brasileiro e o segundo é a categoria chamada voto-protesto. Sim, é esse voto que conta com a desilusão do povo com relação aos candidatos e que acabam votando nas chamadas figuras como uma maneira de afrontar a própria política. Mas isso acaba gerando um círculo vicioso, onde o voto-protesto serve para protestar( nossa, Jura!!!), mas ao mesmo tempo acaba elegendo um candidato que não irá resolver muita coisa, deixando o povo revoltado e voltando ao início do círculo.
Só para ilustrar, em Santos, nos anos 80, o vereador mais votado foi o incrível ZÉ MACACO, que tinha essa alcunha devido ao seu trabalho de distribuidor de panfletos, vestido de....adivinhem?Sim, um símio. Ou seja, o presidente da câmara dos vereadores de Santos seria um ser travestido de gorila. Seria se ele não fosse completamente analfabeto, o que deu o lugar ao segundo vereador mais votado.
Enfim, seja responsável por suas ações, porquê o voto, protesto ou não, pode acabar colocando no poder alguém sem a menor condição de ser o seu representante máximo.

sábado, 23 de agosto de 2008

Misticismo.

Por Felipe Grilo

História real que aconteceu nesta quarta-feira em minha casa, e que me fez pensar. Leiam e tirem suas próprias conclusões.

***

Toca o telefone. Acusa no "detecta" do aparelho que é a minha vó. Não atendo, nem faço questão (por motivos que não vêm ao caso, não gosto dela). Deixo tocar, tocar, tocar, até minha mãe voltar do supermercado com uma sacola nos braços e abrir a porta do apartamento. Digo: "é a sua mãe", para que ela venha correndo atender.

Durante a conversa minha mãe mostrava vontade de rir, mas segurou até colocar o fone no gancho. Ao colocar, percebendo as risadas contidas, perguntei o que ocorreu. Então ela começa a contar:

"Filho, ouve só essa: a vizinha da minha mãe acordou com uns vômitos, umas dores, e parece que começou a gritar, a espernear, até a jogar panela pro alto e falar um monte. Sua avó fechou todos os trincos da casa, se trancou no quarto pra rezar, mas antes me ligou pra desabafar comigo e me falar que a família disse que ela tá com espírito! Chamaram até pastor pra exorcizar. Daqui a pouco ela me conta mais."

Enquanto minha mãe falava e ria, a alça da sacola de plástico que ela carregava vinha esbarrando no aquário do McFish - meu peixe betta de estimação, que mora nas redondezas entre o telefone e o meu computador. Notei que o bichinho tava em pânico por causa da sacola se mexendo!

***

McFish, meu companheiro de sedentarismo, é um cara meio alheio a tudo que o cerca. Também pudera: o mundo dele é formado pelos poucos centímetros cúbicos de água por onde nada, as pedrinhas brancas do aquário e a plantinha de plástico. Ao redor do vidro onde costuma bater com seu focinho, existem minha pilha de CDs e cadernos, uma corneta vermelha, Arioswaldo (minha noz também de estimação, na qual desenhei uma carinha de mal) e uma aranha de plástico, além da parede branca, um mural também branco e uma pequena bolsa, da qual McFish tem um pouco de ciúmes e reage com muxoxos quando penso em tirá-la de perto dele.

Convenhamos: se você fosse um peixe, sentiria tédio total e absoluto. McFish chega a bocejar. Por isso, desconfio que ele sempre nada olhando pro lado esquerdo para se distrair, porque nele existe o maior número de bugigangas fora do vidro. Também desconfio que ele "sabe" que é um peixe e tem consciência de que aquele outro peixe, igualzinho a ele, é um reflexo. Tudo isso sem saber o que é um aquário, e sem imaginar que o vidro é impermeável a coisas sólidas.

Teorias que explicam duas coisas: o seu tédio acentuado por conhecer sua existência, suas privações e não poder fazer nada a respeito – eu até gostaria que ele pensasse ser um pássaro! – e o fato de ter tido quase um infarto, tadinho, ao ver a alça da sacola esbarrando no vidro, tudo com direito a ficar no lado extremo oposto do recipiente pra "aquilo branco e brilhante" não lhe tocar, e a dar bicadinhas na margem da água para compensar sua deficiência respiratória piorada pelo susto.

Sei lá. Só sei que, de fato, ele ficou uns quinze minutos com medo até do meu dedo, ao tentar me aproximar para ver se conseguia acalmá-lo. Mas não: dava a ré com as barbatanas e fazia aquela cara de "nããããão!" que só ele sabe fazer, com suas bochechas grandes e sua boca bicuda. Depois passou.

***

Minha avó voltou a ligar, como combinado, para minha mãe atender e me contar o resto da história. O tormento por lá já tinha passado e a cena, que remontava aos períodos medievais, sucumbiu diante da farsa da mente. O pastor benzeu a infeliz e a levou ao hospital, pois era vítima não de um ente do mal, mas de uma cólica no fígado.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Teorias.

Por Heloísa Noronha.

Domingo passado tive uma conversa com minha prima Crica que me deixou bastante pensativa. Mãe de três filhos (uma adolescente e um casal de gêmeos), ela defende a tese de que a educação dos pais não interfere muito na personalidade das crianças. Segundo Crica, elas já nasceriam com o temperamento formado – e ele apenas iria sendo moldado conforme o tempo. Talvez essa teoria tenha mesmo sentido... Esse bate-papo me fez lembrar de uma cartinha que escrevi para o Papai Noel quando tinha 9 anos de idade e que foi guardada com muito carinho. Assim como fez a Cri há umas duas semanas, transcrevo, aqui, uma pérola da minha infância que mostra que algumas características psicológicas da pequena Helô ainda estão bem presentes na versão adulta. Vejam só:

“Querido Papai Noel, (mostrando seu lado carinhoso)
O Natal está chegando e todas as crianças pedem brinquedos para o senhor. E eu gostaria que o senhor trouxesse para mim os seguintes brinquedos: o Mini-cine e o Passatempo. (objetividade ao pedir o que quer)
Se o senhor trouxesse esses dois brinquedos para mim, eu ficaria muito agradecida, tá? (atirando as teias da sedução em cima do Papai Noel)
Todos os anos, no dia 25 de dezembro o senhor me visita e traz presentes para mim, e eu sempre gostei, mas desta vez eu vou adorar, viu? (sensibilidade para fortalecer a auto-estima alheia)
Eu ficaria muito grata se o senhor trouxesse esses dois brinquedos para mim como eu já lhe disse, viu? (insistência e teimosia absolutas para alcançar suas metas de vida)
O senhor pode deixar os brinquedos perto dos meus sapatinhos, tá legal? (desde pequena já ligadíssima em sapatos)
Junto deles o senhor encontrará um cartãozinho de boas-vindas. (apreço pela escrita)
Os meus sapatinhos o senhor encontrará perto da árvore de Natal e do presépio. (subestimando a capacidade masculina de encontrar as coisas)
Que legal o Natal ser comemorado no dia que Jesus Cristo nasceu, não? (ironia fina ao tirar uma com a cara do Papai Noel)
Bom, tchau!
Um beijo e um abraço,
Heloísa J. de Noronha
09-12-1981


O que vocês acham?

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Gerações.

Por Adriana Hernandes.

Ele sonha com uma casa maior.
Ela sonha com a casa da Barbie.

Ele esboça plantas no AutoCAD.
Ela desenha um sol sorridente.

Ele acabou hoje “Crime e Castigo”.
Ela começou ontem “Reinações de Narizinho”.

Ele quer trocar de carro.
Ela quer um Dálmata.

Ele acha a mão dela tão pequena.
Ela acha o nariz dele tão grande.

Ele a repreende.
Ela chora.

Ele se arrepende.
Ela fecha a cara.

Ele pede desculpa e se explica.
Ela pede desculpa e reconhece.

Ele fica com os óculos embaçados por conta do vapor do café.
Ela fica com bigodinho por conta do leite com chocolate.

Ele morre de medo de seqüestro.
Ela morre de medo do escuro.

Ele vive engolindo sapos.
Ela engoliu uma tampa de caneta.

Ele tem gastrite nervosa.
Ela está com catapora.

Ele detesta ervilhas.
Ela teve a quem puxar.

Ele já encontrou três fios de cabelo branco.
Ela já pegou o batom da mãe escondida.

Ela faz todo o sentido.
Ele é o melhor do mundo!

E mesmo cada qual com o seu tempo, eles seguem juntos, paralelos.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Pré-texto.


Por Cristiane Senn.


Mero pretexto pra dor-de-cotovelo.
Porque não há dor que não se faça pretexto pra folha em branco.
Pré-conceito com pré-texto de pré-escola. Tudo ao p(r)é-da-letra. Coisa que não se entende, porque ficam procurando pêlo em ovo de codorna – e sem lupa! – em vez de depilar tudo por pré-caução.
Fora isso, ela subia a ladeira apressada todo dia. Apressada ela, não a ladeira. Claro que não morava na ladeira. Morava no mundo, no Brasil, neste Brasil varonil, que não ousava cantar com sua voz enternecida. Morava no cinza, na fumaça cinza, na buzina cinza, no mar de gente cinza atravessando a rua no vermelho. Mar poluído, nunca tinha visto uma vida ali. Perguntavam aonde ia a princesa com tanta pressa. Ia tirar o pai da forca e a barriga da miséria. Mas nunca que iam acreditar, então nem respondia os pedreiros cheios de amor pra dar. Olhava pra frente sempre, sem saber muito pra onde olhar. Escutando um desses chicos no seu ipod de mentira. E nem sabia que diferença tinha a mentira da verdade, pois quando é que se pode averiguar?
No caminho, a loja de eletrodomésticos tocava “we’ll never gonna survive unless we get a little crazy...”. Mas ela nem entendia inglês, então continuava olhando pra frente, concentrada nesse noel rosa que a Marta gravou pra mim aqui.
Não queria nem choro nem vela nem fita amarela, feinha essa cor, né. Diz que era “feiosinha” o certo. Mas que “feiosinha” era mais feio que “feinha”, isso era. Mais feio que a cor amarela. Marta era inteligente e tinha ensinado muita coisa pra ela, mas também era chata porque corrigia tudo o que ela escrevia. Tudo. O texto nem parecia mais o dela, ficava texto da Marta. Raiva.
Ia-se indo pra biblioteca quando desmaiou. A mochila que caiu sumiu com o pivete que “deixa que eu te ajudo tia” e zup! ou vup! ou pluft! ou sei lá. A senhora que passou do lado fez uma oração, mas nem encostou nela, nem olhou pra ela, talvez nem orasse pra ela, talvez fosse uma praga, talvez nem fosse nada. A cabeça doía e ninguém. Ninguém. Daí que veio aquela moça que disse “ai, você é aquela que mora com a Marta, né?”. Ai, que ter de lembrar da Marta com a cabeça doendo é foda. A moça se abaixou com a cabeleira enorme que ela quase engoliu. 7 segundos de cheiro de shampoo ruim até levantar. Sentou na cadeira do guardinha da biblioteca, que trouxe um copo d’água. Já a conhecia de tanto que ela vinha ali, mas ela mesma nunca tinha visto bigodinho mais ridículo e nojento, tomara que não seja copo dele. E a moça: “Mas o que que foi acontecer, quer que chame um médico, alguém? Mas que cabeça a minha! Vou chamar a Marta!”. E ela: “Mas que cabeça a minha, como dói essa merda.” Isso só pensou (capaz que ia falar), enquanto mexia em sinal negativo. Deusmelivre da Marta agora. Já não basta ficar corrigindo os textos, querer corrigir a saúde. Bebia, mesmo e daí? Sabia que não podia, mas e daí? Daí que desmaiava assim, na frente da biblioteca, na saída do boteco, dentro da livraria, na seção de auto-ajuda. Lembrou de quando vomitou em cima do “Como ser feliz”.
De noite a Marta perguntou do desmaio. Ela fez uma cara de nem-foi-nada, não tinha comido e tal e passou logo. “E sabe que andei lendo aquele seu último texto da dor-de-cotovelo e não entendi. Você não escreve bem o português. Já disse que posso te dar umas aulas. Já corrigi ele. Mudei umas palavras no final. Não é “feinha”, é “feiosinha”, já te disse isso duzentas vezes”.
É, a Marta já tinha dito tudo aquilo e muito mais umas duzentas vezes, até mais. Quanto tempo será que fazia não dizia coisa nova? Um dia ia mandar calar a boca, mas por enquanto era a irmã mais velha que trabalhava. Num escritoriozinho de merda. E porque namorava o filho do patrão. Empreguinho de merda, namoradinho de merda, patrãozinho de merda, gramatiquinha de merda. Era assim que ela via a Marta. E a Marta via ela como? Imatura, preguiçosa, ruinzinha de português, nunca-ia-entrar-na-cabeça-que-crase-era-artigo-mais-preposição, texto de pré-escola. Mas era dor-de-cotovelo, disso tinha certeza. Quem nunca ia entender nada era a Marta. Não tinha criatividade pra nada, nem pra escrever, nem pra reclamar, nem pra arrumar namorado. Acho que nem pra respirar. Me deixa escrever em paz, porra! Mas isso só pensou. Capaz que ia falar. Joana era muda.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Aos 20 e poucos anos.

Por Vinícius Noronha.

Complicado ter 20 e poucos anos. Divisor de águas. Linha tênue que separa o desbunde adolescente da sisudez adulta. Tá na hora, rapaz, você não pensa em casar? Mas já vai casar? Como está sua carreira? Daqui a pouco pode ser tarde demais, vamos farrear por aí? Você não acha que está velho demais pra continuar fazendo esse tipo de coisa? O que nos sobra aos 20 e poucos anos são dúvidas disfarçadas de cobranças, ou seriam cobranças disfarçadas de dúvidas?

Até alguns segundos atrás a vida parecia tão automática. A pretensão do sucesso era apenas uma miragem no horizonte, e agora o horizonte está logo ali na outra calçada. A falta de experiência amorosa justificava o nosso mergulho em todo tipo de namorico mais-que-perfeito, e então passamos a lidar com um pretérito imperfeito que nos traz descobertas suficientes para certificar que o amor é muito mais real que a catarse de paixão que procurávamos cegamente, e que a carência é nossa principal inimiga. Nossos pais eram nossos eternos guardiões, a todo o tempo comungavam milagres como a comida que aparecia na mesa e as meias sujas que misteriosamente surgiam limpas e guardadas na gaveta. De repente se tornaram humanos, quase gente como a gente. Ditavam obrigações, e agora a sentença vira quase um conselho. Mas como alguém que até alguns dias atrás chamava intervalo de recreio vai se acostumar fácil com isso?

20 e poucos anos implica em tomar decisões diferentes. Não são mais decisões de uma noite como a roupa certa, o lugar ideal, a garota mais gata (e não que essas decisões tenham sumido, mas saíram do topo da fila para um lugar intermediário). Agora a flecha aponta para inúmeros alvos cujos nomes ainda nos dizem pouco: “arquitetura” “engenharia agrônoma” “especialização em mídia”. A falta de perspectiva que a adolescência nos brindava era uma dádiva e não tínhamos consciência disso. Mas porra, somos jovens e o que falta de preparo sobra em gás, coragem, ímpeto. Ok, desbravamos essa rota. A correria continua, a caravana passa, a sua estrada parece insossa e algumas situações te fazem pensar “eu errei?”. Errar aos 20 e poucos anos devia ser um direito, mas não adianta, os dias nos fazem acreditar que um erro tão absurdo é o equivalente a perder milhões em ações. Há tempo para conserto, mas é mais conveniente pensar que não há, que tudo é movido por urgência e conquistas precoces.

Viver sem pensar em sobreviver, eis o dilema. Alguns amigos se dão bem, outros não, e cheios de pontos de interrogação te acionam. É bom isso. Juntos, nos tornamos mais fortes e 20 e poucos anos é idade em que a força conjunta pode ser determinante para desviar as pedras no caminho. Parece até que a vida se inicia pra valer aqui e neste exato instante. Os 100 metros livres começaram e você foi o único que não escutou o disparo de largada. Tudo fica estático, e medos e incertezas dos 30, 40, 50 anos invadem a sua idade. “Será que vou ficar sozinho?” “Vou poder mudar quando eu quiser?” "Serei feliz com as minhas opções?". Aí um amigo das antigas que ainda não foi atingido por esse desespero imediato te dá o mesmo tapa na nuca de quando tinha 15 anos, e você nota que é possível envelhecer e ainda sim ser o mesmo.

Ideais que nos desmontam: crescer, aprender, lutar, persistir. E a responsabilidade de vencer. Vencer é ótimo quando se sabe exatamante o que seria uma vitória pra gente. Aos 20 e poucos é comum confundir o que o mundo espera da gente e o que esperamos de nós mesmos, ou juntar tudo no mesmo caldeirão e fingir que, seguindo a trilha mais óbvia, seremos o que sempre quisemos ser. Mas calma, não há o que temer, os sonhos não envelhecem. Só precisa torná-los mais práticos, mais palpáveis. Simples? Claro que não. Se tudo fosse tão simples assim, seria um porre. É preciso colhões pra tudo, inclusive pra se perder, e claro, depois deliciosamente se encontrar e fazer do seu traçado o motivo de abrir os olhos todas as manhãs.

Tudo é relativo.

Por Sergio Faria.

Sabe quando você se apaixona por uma pessoa meio misteriosa que ainda não conseguiu decifrar, ou por alguém que, mesmo conhecendo há algum tempo, continua sendo meio que uma incógnita pra você? Pois é, você só tem dois caminhos: falar ou não sobre essa sua paixão. Olhando pra mim e também influenciado por alguns amigos, cheguei a algumas conclusões e resolvi escrever sobre isso pra eles (e pra elas).

Sei que na prática é muito complicado mas tenho algumas idéias sobre essas situações. Assim: se esse dilema continuar, acho uma boa tentar "jogar xadrez", ou seja, olhar bem suas opções, pensar em todas as possibilidades e avaliar cada movimento sempre olhando lá na frente. Exemplos?

Se você não se confessar...

1 - pode ser que ela nunca tenha te olhado diferente e nunca venha a ser interessar por você. Nesse caso, ficar na sua é a melhor pedida porque assim não haverá nenhum constrangimento, as coisas continuarão no mesmo lugar e cada um seguirá o seu caminho. E vai saber se ela não te acha um mala ou é uma dissimulada que quer ser simpática com todo mundo?

2 - pode ser que ela te ache uma pessoa interessante mas nunca alimentou nada porque te acha bem diferente dela. Ou por te ver como uma pessoa exigente, seletiva e até "muita-areia pro-caminhãozinho" dela, acabe achando que não tem a menor chance contigo. Nesse caso, se você não falar nada pode estar deixando de viver uma relação bem legal com uma pessoa dedicada que vai te valorizar como poucas. E pra piorar pode aparecer alguém mais ousado que você que vai chegar junto da moça e levá-la embora. Quem te garante que o espertinho vai cuidar bem dela e fazê-la feliz como você faria?

3 - pode ser que ela também esteja apaixonada por você mas disfarça e se reprime por vários motivos: timidez, medo, insegurança, trauma... Não falando nada você vai deixar de viver uma paixão avassaladora onde rolaria uma entrega total. E quem sabe Deus não colocou esse ser humano no seu caminho pra dividirem muitos momentos de felicidade? Então acho melhor fazer a sua parte porque Ele faz a dele.

Já se você se confessar...

1 - pode ser que ela não aceite os seus sentimentos e ainda por cima se afaste de você. Se isso acontecer foi positivo o seu desabafo porque assim pôde conhecer melhor essa figurinha e constatar que ela não tem a menor sensibilidade pra ti entender. Sendo assim acho que ela não merece nem sua amizade. Já vai tarde! Viu como as aparências enganam? Mas se você continuar amarrado numa lambisgóia dessas, meus pêsames! Você não tem amor-próprio.

2 - pode ser que ela queira somente sua amizade. Sendo sensata e madura ela vai te achar especial por ter falado o que sente e vai se esforçar ao máximo pra continuar ao seu lado mesmo depois de sua confissão. E se você sumir provavelmente ela vá entender e esperar que você se "cure". Na sua volta, o vínculo entre vocês vai estar fortalecido e assim poderão compartilhar uma relação fraternal bem bacana. Quem sabe ela até se torne sua confidente e te ajude a conquistar alguém? Veja a amigona que você ganhou!

3 - pode ser que ela te fale que você tá confundindo as coisas mas que te quer muito bem, que se preocupa contigo, blá blá blá, o velho clichê. Você fica decepcionado mas ela fica balançada com a sua revelação. E ao continuar convivendo contigo, ela começa a imaginar a possibilidade de vocês ficarem juntos, os pensamentos transformam os sentimentos e ela também se apaixona. Que legal! Mas se não houver uma manifestação em curto prazo, desencana. Vai à luta, vai viver a sua vida e não perde seu tempo.

4 - pode ser que ela também esteja apaixonada mas tenha as mesmas dúvidas que você. Olha só que situação maluca! Um mais inseguro que o outro! Nesse caso, ao se abrir, acho que você receberá um sorriso de felicidade e verá o brilho nos olhos dela. Nesse momento aproveita então pra olhar dentro desses olhinhos, dá um beijo demorado e um abraço bem apertado. Pronto. A partir daí os pombinhos devem aproveitar o que o destino reservou e se curtirem ao máximo.

Agora pensa: e se você continuasse se escondendo e não falasse nada? O grande lance é botar tudo na balança e tomar uma decisão. É claro que falar é muito fácil e só quem tá na pele pra compreender melhor o que se passa realmente. E tudo isso depende também de vários fatores como o grau de intimidade, até que ponto você conhece o histórico da pessoa, da disponibilidade dela ... e isso é relativo! Pessoas comprometidas devem ser descartadas, ignoradas? Eu acredito que não. Pode acontecer de uma pessoa estar infeliz com seu par e não demonstrar porque se acomodou e acha que é assim mesmo. "Não tem tu, vai tu mesmo". Ou talvez esteja esperando encontrar a pessoa certa pra tomar coragem e se livrar daquele traste. Quem sabe não é você o porto seguro que esse alguém sonha encontrar?

Por pensar assim acho que sempre devemos falar de nossos sentimentos e prego isso a todas as pessoas que me pedem opinião sobre o assunto. Temos o livre arbítrio mas nesse caso acredito que reprimir o que se sente só nos deixa angustiados e sofrendo de graça sem ao menos saber o que existe do outro lado. Se é pra sofrer, pelo menos sofra por um motivo real, por alguém que te disse não, que te abandonou, que te traiu... Sofra tudo que tiver que sofrer e depois exorcise tudo de ruim que ficou. Assim você fica mais forte e vai amadurecendo. Mas a cura total só vem com o tempo, nosso grande aliado. Agora sofrer por uma história que é só um faz-de-conta? Fala sério! Ninguém merece.

domingo, 17 de agosto de 2008

Micos "conjugais".


Por Daniel Ramos.

Ah, os relacionamentos... Como pode algo tão simples, nos tirar noites de sono, nos fazer suar frio quando nos aproximamos daquela pessoa especial, fazemos loucuras de amor e paixão para conquistar a pessoa amada e quando conseguimos... Bem, ai começam os primeiros meses de namoro, frio na barriga... Bem vou parar por aqui, porque o resto vocês conhecem. Meu assunto nesse post é compartilhar com os leitores os meus maiores micos em relacionamentos, aqueles de deixar Ben Stiller no chinelo. Preparados? Então, puxem um cadeira (acho que já fizeram isso) e venham ver o espetáculo.


MICO 1

Como sempre começando com um mais light. Estava eu na casa de um desses meus "causos", e notei que ja começava a ficar tarde. Como o namoro ainda estava no começo e eu conhecia bem minha fama de desastrado, evitava ficar pra jantar ou qualquer coisa em que pudesse chafurdar na minha própria lama de patifarias. Mas aquele dia não pude evitar, pois além de estar deveras tarde e meu estômago roncava como motor de patinete, resolvi ficar e deleitar aquela refeição em família. Para minha sorte, os membros da casa haviam saído, e estavamos na casa apenas eu, a "perna-de-calça" da minha namorada na época e o pai dela, dormindo no sofá. O jantar mais tradicional possível para uma noite de sabado: Pizza. Comemorei, mesmo que antes do tempo, pois era algo que dificilmente eu pagaria mico, a não ser que derramasse um fatia de calabreza na minha calça de moleton. Doce ilusão, pois eis que depois que nos servimos do alimento, eu resolvo abrir a garrafa de refrigerante. Só que em minha soberba falta de noção, esqueci que o refrigerante vem numa garupa de moto, com um condutor assás irresponsável, pulando lombadas e chacolhando feito dançarina de axé. Portanto, no momento que abro o refrigerante, aquilo explode de maneira irreprodutível, e confirmando a lei de Murphy, caindo um bom bocado de seu conteúdo em cima da inerte pizza. Aí ja viu, aquilo virou um mar de catupiry, azeitona, lombo e guaraná Dolly. Mas o pior foi meu ex-sogro, recém acordado de sua soneca vespertina, ainda meio grogue, servindo-se calmamente do que sobrou da pobre coitada. Nem quero imaginar a reação dele comendo aquela deliciosa mistura agridoce, tipicamente brasileira (afinal, gente, guaraná é da Amazônia né?!)

MICO 2

Esse aconteceu na época da Páscoa, onde se comemoram duas datas importantes: os 40 dias da ressureição de Cristo e a morte da minha vergonha na cara, porque depois desse, só sendo muito cara-de-pau para voltar a frequentar aquele ambiente familiar. Como todos nós sabemos, Páscoa é a época onde nos entupimos de chocolate e equecemos completamente o significado do feriado. Pois bem, estava eu em outra reunião de família, de outra ex-namorada. A família tinha uma tradição de reunir-se na casa da bisavó, onde havia um grande quintal e os pais escondiam os ovos das crianças nas árvores ali localizadas. A festa transcorria tranquilamente, até que percebo que uma das priminhas dela chorava compulsivamente por não ter encontrado seu ovo. Os tios brincavam, dizendo que o coelhinho da páscoa havia escondido ali no quintal mesmo, e um deles, bêbado, me lança: "o namorado da.... procura, é a primeira vez dele aqui, hahahahahah!" E eu, evidentemente na ânsia de agradar, fui atrás do tal ovo. Procurei por todo lugar, e já estava a ponto de chorar mais que a garotinha, quando olho para cima da árvore mais alta da casa e vejo, ali, pendurado em um dos galhos mais altos, o tal ovo. Provavelmente que o deixou ali foi o macaco-aranha da Páscoa, porque para subir àquela altura só sendo da familia dos símios. Bom, dizem mesmo que o homem advém do macaco, resolvi tentar. Até que, para meu espanto, consegui subir de maneira tranquila, arrancando até aplausos da família. Mas eis que pego o ovo, e ja quase no momento de descer, meu pé esquerdo escorrega, e eu sem titubear, prevendo a queda iminente, coloco o braço para apoiar minha queda. Só que da próxima vez que fizer isso, vou colocar o braço ONDE NÃO ESTIVER A PORCARIA DO OVO!!!!!. Resultado, braço fraturado e o ovo de chocolate completamente destruído devido ao meu peso. Os aplausos se transfomaram em olhares de desaprovação, e agora a priminha tinha reais motivos pra chorar. E eu também!

MICO 3

Sinceramente me pergunto como depois de tanto mico não continuo virgem até hoje. Bem, esse foi mais desgradável ainda do que os outros. Meu namoro já não andava as mil maravilhas, e eu tentava fazer de tudo para agradar. Numa noite, uma prima dela trouxe uma fita de vídeo na qual mostrava minha ex na formatura da quarta série, e nela aparecia seu finado pai. Era o único registro de imagem dele, e aquela fita era uma relíquia familiar. Só que havia um detalhe: eles não tinha vídeo cassete em casa, e eu como sempre, na melhor das intenções, me ofereci para emprestar o meu. Voltei pra casa e peguei meu legítimo "panaphonics" de Bogotá, com uma cabeça e meia, e levei para que pudessemos assistir. Demorei uma hora pra instalar, porque aquilo que eles tinham não era uma TV e sim um fogão de quatro bocas com imagem, mas tudo bem, consegui instalar. Colocamos a fita, e lá estavam as belas imagens dela pequenina no colo do pai, e todos na sala com os olhos marejados de saudade. Mas eis que meu vídeo começa a fazer um barulho estranho, que aumenta a cada minuto. Era um barulho como se lá dentro houvesse um gremlin faminto, um porco gemendo na faca, que estava ficando ensurdecedor, até que a imagem apaga de vez. Todos se entreolham assustados e eu me levanto para ver o que ocorreu. A situação começa a ficar afro-brasileira quando aperto o botão de ejetar e nada da fita sair. O suor frio descia pela minha espinha até chegar no meu glúteo máximo, que nesse momento encontrava-se em estado de animação suspensa devido ao medo. Me virei para os parentes e fiz sinal de negação com a cabeça, como um médico que dá a notícia de um falecimento. Completamente atordoado, levei o vídeo para minha casa e la tentei fazer algo. Aquele lixo teve que ser aberto a golpes de marreta, para então tirar de lá o que sobrou da fita, completamente carcomida e distorcida. Claro que meu namoro não durou uma semana depois daquele fato. Mas faz parte. O namoro foi para o cemitério junto com a fita.

sábado, 16 de agosto de 2008

Caro amigo Zzyziks,

Por Felipe Grilo.

Sei que você está de partida para conhecer o planeta Terra durante suas férias intergaláticas. Já fiz esse mesmo programa de índio – tive de parar minha espaçonave num continente e, por perceber que ninguém lá havia sido colonizado, batizei o lugar de "Brasil", que na nossa língua significa "escambau".

Mando esta mensagem para lhe avisar o seguinte: não é fácil se virar no planeta Terra. Principalmente quanto à comunicação. Você vai entender melhor com a prática, mas aqui vai um manual básico em formato de dicas:

1) Em locais conhecidos como elevadores, onde os seres humanos sobem e descem, é de bom tom dizer "Está quente, não?" ou "Está frio, não?" ou "Clima maluco, não?", mesmo que compartilhar informações meteorológicas não aparentem ter relevância. Os humanos sentem-se constrangidos por estarem em silêncio em local público.

2) Em contrapartida, um ser humano sempre pedirá informações quando você estiver de pé, andando, ocupado ou quando não sentir o menor constrangimento em permanecer calado.

3) Pequenos gestos fazem toda a diferença. Use o dedo polegar para dizer "opa, tudo beleza". Não o dedo médio. Na dúvida sobre qual dedo escolher para formular seu cumprimento, use apenas as cordas vocais.

4) Estes mesmos pequenos gestos podem mudar de significado de acordo com a região. Dedo polegar significa "tudo beleza" no Brasil, mas na Grécia significa algo como "Quero comer sua mãe". O canibalismo não é incentivado.

5) Contar piadas – causos engraçados, fictícios ou não, que estimulam o arqueamento labial - é uma tática utilizada para se apresentar coerente ao gosto popular e ao ambiente cultural que o cerca. O ato traz o significado implícito de "Ei, eu sou legal! Sou da mesma tribo! Não me matem!".

6) Contar piadas animam o ambiente e fazem de você mais querido no círculo social. No entanto, existem ocasiões em que é "necessário" estar triste ou ao menos compenetrado. Não comente sobre como é engraçado ter algodão dentro do nariz em uma cerimônia funerária.

7) Como a linguagem humana é versão beta 1.0, existem apenas três tipos de interlocutores no ato comunicativo de contar piadas: o que não sabe qual é a graça, mas sabe contá-la; o que dá risada sem entendê-la; e o que dá risada e explica a piada aos dois primeiros logo após ser contada. Na dúvida sobre qual tipo de interlocutor ser, não se comprometa: seja o segundo.

8) Cuidado ao utilizar o recurso da ironia em países cujo IDH é menor do que 80. Poucos seres humanos possuem facilidade em compreender a fina arte da valsa do insulto, da esculhambação com gentileza. Pare de ironizar ao primeiro "Desculpa, não entendi!".

10) Também pelas falhas da linguagem humana, obras primas da imagem, da literatura, da música e do cinema são dignas de compenetradas análises por parte de seus receptores, ainda que tais obras não necessitem de tanto esforço. Isso faz leva as mentes humanas a viagens conceituais diferentes dos caminhos traçados pelo artista. Esta é a arte contemporânea: é como dar um mapa para o outro se perder. Uma contradição em termos.

11) De acordo com a Constituição do Universo, artistas só têm seu talento reconhecido quando vão para o mundo dos mortos. A razão é simples: Mozart morreria duas vezes se soubesse que suas sinfonias viraram toques polifônicos.

12) Por mais que a sua linguagem ainda seja arcaica, os seres humanos avançam tecnologicamente no sentido de torná-la ainda mais. Com o advento do aparelho chamado celular, um ser humano tecla um código de oito dígitos para falar o que quiser com outro ser humano. Após o advento do SMS o mesmo ser humano precisa digitar, no mesmo aparelho, o código "666444#8883666#22336" para dizer "oi tudo bem". Portanto, adapte-se às novidades e pense em como você pôde viver sem elas.

13) O mesmo vale para a Internet – a rede terráquea de computadores. Com o tempo, você certamente vai presenciar abreviaturas em quantidade de fazer lembrar o tempo das mensagens secretas militares, economia em pontuações de fazer lembrar o tempo dos telegramas e mal-entendidos de fazer lembrar o tempo do telefone fixo, utilizado até hoje pelos seres humanos para desfazer os erros de interpretação ocasionados por um e-mail.

14) Eu poderia continuar, mas o resto você entende com a prática. Aliás, se preferir, esqueça tudo o que leu até aqui. Os seres humanos não prestam atenção em como se comunicam. Nem mesmo nas mensagens que emitem ou recebem. Tanto que não perceberiam, muitos deles, que neste pequeno manual não consta a instrução número 9.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Sou chique, benhê, tô na Bienal!

Por Heloísa Noronha.

Amigos, meu novo livro estará à venda a partir da semana que vem no estande da Editora Rocco (fina eu, é a mesma do Harry Potter!) na 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que começou ontem (14) no Pavilhão de Exposições do Anhembi. Dessa vez, nada de ajudar a mulherada a evitar o surgimento de rugas, driblar os efeitos da lei da gravidade nos glúteos ou ganhar qualidade de vida dormindo mais e comendo menos: minha nova proposta literária é dar conselhos amorosos úteis e infalíveis. A obra-prima Manual da Ex / Manual da Atual tem quatro objetivos básicos: ensinar ex-namoradas a lidar com as atuais namoradas, ensinar as atuais namoradas a lidar com ex-namoradas, fortalecer a auto-estima de leitoras de qualquer estado civil e, é claro, permitir que a autora que vos escreve ganhe rios de dinheiro e tire finalmente o pé da lama. São dois livros em um só – de um lado, o Manual da Ex, e do outro, o Manual da Atual. A idéia foi contemplar os dois tipos de leitora como se fossem as duas faces de uma mesma moeda, já que praticamente todas as mulheres ocupam, pelo menos uma vez na vida, ambos os papéis. A linguagem é simples e objetiva, com dicas profundas e embasadas e, como é de meu feitio, muito humor e muita informação bagaceira. Abaixo, uma pequena amostra do conteúdo do capítulo 1 do Manual da Ex, sobre as pistas que os homens dão quando estão prestes a dar o pé na bunda em uma garota, mas não têm coragem. Esse texto é do meu arquivo original, ou seja, antes de ser publicado passou pela revisão e pelo crivo da editora. Mas, pelo que lembro de ter aprovado, devem ter mudado só uma coisinha ou outra:

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(...) em vez de mandar extraterrestres nos avisar que estamos correndo perigo e que é preciso ter fé (como no filme Sinais, com o Mel Gibson), eles fazem joguinhos psicológicos que vão destruindo os nossos nervos pouco a pouco. Agora que você está sozinha, veja se alguma das pistas abaixo soa familiar. À essa altura de nada adiantam, mas quem sabe você já fica esperta para os próximos relacionamentos?
1. Formalidade. Em vez de chamá-la de Pati ou de Carol, ele passa a pronunciar o seu nome completo: Patrícia Helena ou Maria Carolina. E com o mesmo tom de voz da sua mãe, quando você era criança.
2. Falta de desejo sexual. Mesmo vestida de Angel da Victoria’s Secret, ele a olha como se você fosse um vidro de picles. Detalhe: ele não curte comer picles.
3. Críticas à sua aparência. De repente, ele se transforma numa versão piorada do seu amigo cabeleireiro sincero, atacando-a com fases edificantes como “Nossa, querida, sua bunda está parecendo a estrada de Poços de Caldas!”, “Com essa maquiagem você vai assustar as criancinhas do prédio” e “Sua perna lembra a da Conga, a Mulher Gorila… Quer dizer, desculpa, a Conga tem menos pêlos que você”.
4. Discussões bobas. Qualquer coisinha vira uma confusão – e, é claro, ele fará com que você pense que a culpa foi sua. Se você sugere ir ao cinema ver determinado filme, por exemplo, o ciníco vai dizer que você é egoísta, que nunca pergunta o que ele quer fazer, que só pensa em si mesma e que precisa de espaço. Aliás, quero registrar que ODEIO quando algum homem diz essa expressão, “preciso de espaço”. Ah, quer espaço se joga do prédio, meu filho!!
5. Egocentrismo e desprezo. Ele começa a falar apenas da própria vida, sem parar, e nem presta atenção no que você diz. E quando você conta alguma realização bacana, ele duvida da sua capacidade ou a diminui.
6. Compromissos idiotas. Campeonato de golfe, batizado da filha da madrinha da faxineira, enterro do cachorro do vizinho, festival de cinema iraniano, passeata pelos direitos dos contadores travestis, XV de Piracicaba contra o Corinthians, lançamento de anão no espaço (olha aí o espaço de novo!)… Qualquer compromisso, mesmo os mais bizarros ou imbecis, serve de desculpa para fugir da sua presença.
7. Companhias. Sempre. Vocês não conseguem ficar mais nem um minuto sequer a sós. Para qualquer lugar aonde vão, ele leva alguém a tiracolo para impedir um contato mais profundo (literalmente) com você. A lista de intrusos inclui desde a irmã encalhada até o amigo nerd, o tio solteirão convicto e o sobrinho catarrento de dois anos. Se você conseguir arrastá-lo a um motel e ele for judeu, é bem provável que leve a mãe junto para curtir a banheira de hidromassagem.
8. Incentivo à loucura. Ele muda os objetos de lugar para que você não possa encontrá-los, comenta sobre coisas que você disse ou fez (e que não se lembra), age de maneira estranha em um dia e no outro, quando você pergunta se ele está bem, questiona sua lucidez. O objetivo, muito bem definido e bastante explorado por filmes de suspense, é fazer com que você pense que surtou e que não resta outra alternativa a não ser se internar no manicômio mais próximo. E sem direito a visitas, já que ele não pretende ver sua cara tão cedo.
9. Taradice crônica (mas não por você). Ele começa a virar o pescoço como a Linda Blair em O Exorcista diante de qualquer mulher que passa na rua, até mesmo das septuagenárias e das freiras. Enquanto isso, continua tratando você como o vidro de picles citado no item 2.
10. Higiene precária. Para irritá-la, ele deixa o cabelo e a barba crescerem. Se não funcionar, apela: deixa de limpar os ouvidos, cortar as unhas (inclusive as dos pés), usar desodorante, escovar os dentes e, por último, de tomar banho. Os adeptos mais ousados dessa tática não dão descarga após o número dois e fazem xixi na cama. Na SUA cama. Com VOCÊ dormindo nela.

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E ATENÇÃO, POVO!!! O coquetel de lançamento para amigos, familiares, conhecidos e afins vai acontecer no dia 9 de setembro, a partir das 18h30, na Livraria da Vila. O endereço é Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena (SP). Espero todo mundo lá!!! Quem não for, vou rogar uma praga maldita de cem anos! Assim que tiver o convite oficial bonitinho, com a capa e tudo, posto aqui!