quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Ainda Lembro.

Por Adriana Hernandes.

Ainda lembro da sua primeira carta. Você começava se desculpando pelos erros e a falta de tino com as palavras. Mas todos aqueles anseios sobrepostos no papel da minha cor favorita eram tão maiores, qualquer “L” ou “S” fora do lugar não faria diferença alguma. Que minha antiga professora não me ouça, mas sabe que eu até achava um certo charme?

Ainda lembro dos nossos planos espalhafatosos para fugas arrojadas. Era tudo muito fácil. Pegaríamos uma bicicleta e iríamos pra praia. Alugaríamos um conversível e escaparíamos pro Uruguai. Construiríamos um foguete e partiríamos rumo à Lua! “Lua não, é muito perto. Vamos pra Saturno, é bem mais legal”. Eu me perguntava o que faríamos no Uruguai ou em Saturno, mas com o destino traçado, o resto era detalhe.

Lembro das batalhas para impormos nossas preferências, tudo extremamente importante. Que começasse a luta:

1º round: Pipoca vs. Biscoito de polvilho. Nem te dava chance, já ia respondendo: “Pipoca combina com todos os temperos, fica bom com tudo. Biscoito de polvilho tem gosto de ar, gosto de coisa nenhuma”. Você ficava sem ter o que dizer, então era ponto pra mim.

2º round: Queimada vs. Futebol. Você nem me dava chance, já ia respondendo: “Queimada não é esporte”. Eu não desistia e retrucava: “A gente joga assim mesmo”. Mas perdia com sua tréplica: “Já viu jogo de queimada na TV? Conhece algum time? Me diz o nome de um jogador? Viu, só? Queimada é brincadeira, não esporte”. Eu ficava sem ter o que dizer, franzia a testa, cerrava os olhos, juntava os lábios, mas dava o braço a torcer, então era ponto pra você. Engraçado que nós nunca tentamos o 3° round, era bem melhor quando os dois saiam vitoriosos.

Lembro da tua cara tediosa em frente aos exercícios de sintaxe. Irritava-se com as orações, elas eram muito subordinadas. E odiava procurar o tal sujeito, mesmo o coitado tendo tantos predicados.

Mas eu também lembro das tuas tentativas frustradas de me encaminhar pelos trilhos nebulosos da Química. Você aparecia com todos os elementos necessários, do metal mais vil ao gás mais nobre. Não adiantou de nada, da minha parte nunca houve reação.

E das buscas por constelações, lembra? Você me mostrava Centauro, eu lhe indicava o Cruzeiro do Sul. Mas a verdade é que nós não entendíamos absolutamente nada disso, e só decoramos esses nomes porque vimos em algum livro de ciências enquanto esboçávamos nossa rota até Saturno. O que não tirava a graça de ficarmos horas e mais horas olhando para o céu, apontando pro vazio e fazendo desejos pra qualquer estrela que brilhasse mais forte.

Lembro quando nos fitávamos até um dos dois desistir e piscar, impressionante como eu sempre ganhava. Também, nunca cansei de te olhar nos olhos, tão apaziguadores. Sempre foram meu oceano Pacífico em momentos de abalos terrestres.

Se eu puxar bem pela memória, sei que vou me lembrar de muito mais. Mas me conforta tanto saber que não preciso lembrar dos teus olhos, é só virar pro lado e eles estão lá, juntos de você, sempre dispostos a me resgatar das tormentas.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Mil novecentos e noventa e quatro.

Por Cristiane Senn.


Na quarta-feira passada falei sobre forma x conteúdo, palavras em latim, bolo de fubá, textos infantis. Devido à falta de tempo e idéias, hoje resolvi pegar uma carona neste último, aproveitando-me do banco de textos preparados durante toda a minha vida para um possível blog.

Segue o primeiro deles, original e transcrição. Relíquia.



Galho e Assoalho

Galho é o gato de Seu Sapalho
Assoalho é o cão do seu João.
João faz cartão.
Sapalho joga baralho.
Galho e assoalho brincam.
Assoalho arranca o galho dá árvore.
Galho chora:
- Miau, miau, miau, miau.
Assoalho tem dó e fala:
- Au, Au, Au, Au, Au.
Mas quem conhece a sílaba lho?
Eu só eu, mais ninguém.
Galho come ovo com alho.
Assoalho come sabão com pão.
Que fome, não!
Nenhum cachorro come sabão.
E então eu falo a sílaba im e eu digo fim.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Se.


Por Vinícius Noronha.

Se você precisar escrever, pra desabafar ou colocar os pensamentos no lugar, eu oferto algumas linhas desenhadas por mim, meio tortas, mas que com certeza abrigarão com muito gosto qualquer recado seu que não puder esperar. Se você não estiver conseguindo sorrir, eu puxo os seus lábios, com meus dedos, no formato de um sorriso exagerado, e de tal maneira que ele, por fim, se torne espontâneo.

Se as águas tortuosas se tornarem um real perigo, eu faço o seu pulmão e seus braços ficarem tão fortes e resistentes que será impossível que elas te vençam. Obstáculos? Empresto minhas asas. Feridas? Sou o band-aid onipresente. Enxaqueca? Pode deixar que eu desligo o mundo até você melhorar.

Se a emoção se dissipar, provoco a aventura em reinos inexplorados, cheio de seres amistosos em volta da cabana. Se a indiferença surgir, reforço a placa de atenção. Se a ansiedade se prover, eu pesco, aonde quer que esteja, o mais perfeito equilíbrio.

Se os livros não te disserem mais nada, eu invoco o silêncio mais cúmplice e sábio. Se o pé estiver ferido, um serviço rápido e completo delivery 30 horas por dia será encaminhado pra te levar aos destinos planejados. Se o sono não vier, faço o acalanto mais suave criar vida dentro do fechar dos seus olhos.

Se as canções forem chatas, contrato a fanfarra mambembe e rearranjo tudo com os instrumentos mais extravagantes e melodias McCartneyanas. Se o papo estiver cansativo, declamo Drummond com nove luas servindo de locação. Se todo e qualquer sentimentalismo parecer inócuo, trago as crianças que nós fomos para que possamos resgatar algumas razões e encantos.

Se o cansaço parecer infinito, te dou o travesseiro mais confortável, com o café-da-manhã mais agradável, na cama de algodão-doce. E se a ansiedade e impotência se infiltrarem nas suas tarefas, providencio magos e fadas instantaneamente que desenvolvam, em conta-gotas e sem contra-indicação, a impermanência do flagelo.

Se os dias forem sinônimos de desgaste e incertezas, promovo a maior descontração e ternura num teatro de marionetes. E se a impressão for de que sua sina, equivocada, já está sublinhada, eu contrato os melhores autores para que tudo na sua existência seja ensinamento e delicadeza. E com a pólice de que, ainda no meio da trama, a sua alegria se desvincilhe de qualquer ponto final.

Se a paixão te pegar, serei o pombo-correio endiabrado sobrevoando mares pra espalhar as boas novas. Se a dor te pegar, serei a pena que fará cócegas nos seus pés. Se a solidão te pegar, serei a arquibancada de Fla-Flu gritando o seu nome. Se o tédio te pegar, sintetizo um espetáculo numa caixinha de fósforo, pra você poder levar pra onde quiser.

E se, no fim das contas, tudo parecer tão sisudo e sem sentido, e as fantasias e sonhos se esvanecerem nas sombras da rotina, te ofereço, disfarçada de gratidão e embrulhada em carinho, a crônica mais espontânea que eu poderia escrever.

Paradoxo.


Por Sergio Faria.

Nem toda atração é paixão
Nem toda paixão é aventura
Nem toda adoção é alívio
Nem todo alívio é cura

Nem todo abraço é abrigo
Nem todo abrigo é família
Nem todo adultério é tentação
Nem toda tentação é armadilha

Nem todo desastre é acidente
Nem todo acidente é acaso
Nem toda crítica é censura
Nem toda censura é atraso

Nem toda festa é disfarce
Nem todo disfarce é trauma
Nem todo cansaço é velhice
Nem toda velhice é calma

Nem toda disciplina é rigidez
Nem toda rigidez é militar
Nem todo casal é união
Nem toda união é altar

Nem toda derrota é queda
Nem toda queda é embriaguez
Nem toda ausência é silêncio
Nem todo silêncio é timidez

Nem todo talento é dom
Nem todo dom é exercício
Nem toda eloqüência é pregação
Nem toda pregação é desperdício

Nem toda direção é busca
Nem toda busca é realização
Nem toda coragem é heroísmo
Nem todo heroísmo é salvação

Nem toda aids é solidão
Nem toda solidão é deserto
Nem todo ensino é livro
Nem todo livro é aberto

Nem todo futuro é filho
Nem todo filho é ingrato
Nem todo fanático é louco
Nem todo louco é insensato

Nem todo esnobe é burguês
Nem todo burguês é racista
Nem todo pai é espelho
Nem todo espelho é egoísta

Nem toda beleza é juventude
Nem toda juventude é audaz
Nem toda distância é saudade
Nem toda saudade é fugaz

Nem todo encontro é coincidência
Nem toda coincidência é evidente
Nem toda intuição é conselho
Nem todo conselho é conveniente

Nem toda bondade é milagre
Nem todo milagre é redentor
Nem todo chefe é líder
Nem todo líder é ditador

Nem todo achado é lucro
Nem todo lucro é material
Nem toda idolatria é pecado
Nem todo pecado é carnaval

Nem todo alimento é consumo
Nem todo consumo é necessidade
Nem todo labirinto é mulher
Nem toda mulher é metade

Nem todo atalho é nudez
Nem toda nudez é injúria
Nem todo prazer é sexo
Nem todo sexo é luxúria

Nem todo judas é político
Nem todo político é ladrão
Nem todo beijo é afeto
Nem todo afeto é compreensão

Nem toda informação é cultura
Nem toda cultura é útil
Nem todo exagero é mídia
Nem toda mídia é fútil

Nem todo discurso é mensagem
Nem toda mensagem é luz
Nem toda covardia é aborto
Nem todo aborto é cruz

Nem toda formalidade é respeito
Nem todo respeito é medo
Nem toda tragédia é destino
Nem todo destino é segredo

Nem todo diálogo é acordo
Nem todo acordo é harmonia
Nem toda paz é sonho
Nem todo sonho é utopia

Nem toda castidade é tortura
Nem toda tortura é febem
Nem toda entrega é natureza
Nem toda natureza é refém

Nem todo ciúme é sofrimento
Nem todo sofrimento é escola
Nem todo lixo é supérfluo
Nem todo supérfluo é esmola

Nem todo mercenário é eleitor
Nem todo eleitor é escuridão
Nem todo verbo é criação
Nem toda criação é inspiração

Nem todo irmão é amigo
Nem todo amigo é fiel
Nem todo adeus é morte
Nem toda morte é cruel

Nem todo indefeso é inválido
Nem todo inválido é infeliz
Nem toda esperança é tempo
Nem todo tempo é cicatriz

Nem todo diploma é inteligência
Nem toda inteligência é benefício
Nem todo impulso é abismo
Nem todo abismo é vício

Nem toda mãe é acalanto
Nem todo acalanto é lembrança
Nem toda virgindade é pureza
Nem toda pureza é criança

Nem todo homem é ameaça
Nem toda ameaça é valentia
Nem todo olhar é incógnita
Nem toda incógnita é fantasia

Nem toda matança é guerra
Nem toda guerra é dinheiro
Nem todo inferno é inimigo
Nem todo inimigo é estrangeiro

Nem todo sorriso é alegria
Nem toda alegria é contagiante
Nem todo hipócrita é convertido
Nem todo convertido é arrogante

Nem todo mestre é sábio
Nem todo sábio é ancião
Nem todo consenso é música
Nem toda música é emoção

Nem toda existência é experiência
Nem toda experiência é aprendizado
Nem toda inquisição é igreja
Nem toda igreja é mercado

Nem toda fama é arte
Nem toda arte é imortal
Nem toda dúvida é adolescente
Nem todo adolescente é radical

Nem todo trabalho é orgulho
Nem todo orgulho é exibição
Nem todo agradecimento é rotina
Nem toda rotina é alienação

Nem todo aplauso é elogio
Nem todo elogio é aprovação
Nem toda repetição é paciência
Nem toda paciência é oração

Nem toda mão é caridade
Nem toda caridade é paliativo
Nem toda lei é limite
Nem todo limite é relativo

Nem toda competência é critério
Nem todo critério é essencial
Nem todo erro é ignorância
Nem toda ignorância é fatal

Nem todo mártir é sensível
Nem todo sensível é poeta
Nem todo mandamento é desafio
Nem todo desafio é meta

Nem todo jogo é brinquedo
Nem todo brinquedo é lazer
Nem todo vampiro é eleito
Nem todo eleito é poder

Nem todo abuso é policial
Nem todo policial é delinqüente
Nem toda mudança é vontade
Nem toda vontade é suficiente

Nem todo êxtase é sucesso
Nem todo sucesso é escravidão
Nem toda pobreza é violência
Nem toda violência é ficção

Nem todo cuidado é proteção
Nem toda proteção é segurança
Nem toda geração é promessa
Nem toda promessa é herança

Nem todo esforço é êxito
Nem todo êxito é recompensa
Nem todo horror é prisão
Nem toda prisão é sentença

Nem toda reflexão é filosofia
Nem toda filosofia é vã
Nem toda força é benção
Nem toda benção é manhã

Nem toda emoção é lágrima
Nem toda lágrima é sinceridade
Nem toda fuga é suicídio
Nem todo suicídio é vaidade

Nem toda fraqueza é doença
Nem toda doença é luta
Nem tudo que penso é verdade
Nem toda verdade é absoluta

domingo, 10 de agosto de 2008

Por quê?

Por Daniel Ramos.

Todos nós sabemos, digníssimos leitores e leitoras, que o ser humano é falho, cheio de fraquezas e traços de caráter que muitas vezes são moldados já na nossa tenra infância. Pois bem, hoje esse proficiente blogueiro vos brindará com os maiores traumas que tenho no meu nível consciente de psiquê. E por que não dividí-los com meus queridos leitores? Vamos a eles:

- Por que eu não danço?

Essa é fácil de responder. Primeiro lugar, apesar da tez ligeiramente morena, e da minha afro-descendência, eu infelizmente nasci agraciado com a cintura e a ginga de um legítimo habitante da península escandinava, e posso jurar que quem já me viu dançando com certeza deve ter dito “Aposto que ele aprendeu esses passos em Oslo!”.
Mas como cabe ao ser humano não se ater às suas limitações, quando tinha meus 12 anos de idade resolvi embarcar numa aventura: Tomar aulas de dança de salão. Sim, isso tem documentado e a fita está em minha posse. Não precisa nem dizer que ao longo do curso acabei ficando na turma dos menos capacitados, aquela que fica no fundo da sala de aula, longe dos olhares de reprovação do mestre. Ah, o professor era um show à parte. Másculo como uma borboleta, ele vira e mexe soltava gritos histéricos, que poderiam rachar um vidro de cristal. Mas apesar de crítico, sempre soube escapar de seu olhar impiedoso. Mas infelizmente a doninha nunca foge do caçador (nesse caso um caçador de echarpe de seda branca, bermuda florida e um mosquete de esgrimista). Chegou o dia da formatura, e todos tinham que dançar um pouco para o “mestre” avaliar. Depois da apresentação da turma da frente, eu fui logo o primeiro dos fracassados a tentar. Dancei ao som de “Paparico” do Molejo ( parem de rir!!!), porém a batida do pagode não me empolgou e eu dancei meu clássico “dedinhos pra cima e pernas semi-paralíticas”. Quando terminei a valsa da morte, o professor se levanta, vermelho como um camarão, passa a mão na testa e grita :”Criatura!!!!!!!!!!! O que é isso que você acabou de dançar? Sai, sai da minha aula meninoooooooooo!!”. Claro que dei boas gargalhadas com aquilo, pois provei pra mim mesmo que meu lugar não era ali.

- Por que tenho medo de nossa senhora de Fátima?

Era uma noite de domingo, e eu queimava em febre na cama de casa, com dificuldades em respirar, e assistindo “Fantástico” na TV. Eis que começa a passar uma reportagem falando das aparições de Fátima, a fim de revelar seus três segredos às crianças. Relataram como seria a possível aparição, consistindo numa fumaça espessa, e cheiro de rosas. Tudo bem, tudo lindo, mas eis que olho pro lado da minha cama e vejo uma fumaça pairando por ali, parecida com a descrita na reportagem. Minha reação foi ficar paralisado de medo, sentindo a vista ficar turva e prestes a desmaiar, quando em minha última fagulha de sanidade me lembrei: DO BENDITO APARELHO DE INALAÇÃO!!!!!!
Sim, confundi a piedosa santa portuguesa com um aparelho de inalação velho e barulhento. Blasfêmias à parte, ficou claro que se a santa aparece para mim com o intuito de me revelar seus três segredos, eu provavelmente me borraria todo e em minha cabeça só ouviria” por favor não me leva, por favor não me leva”!

- Por que não como sagu?

Essa é fantástica. Estava reunido com uns amigos paulistanos, na gloriosa capital, pois tínhamos marcado de ir a um show de graça, se não me engano na Avenida Paulista. Chegamos por volta das oito e meia, e o show ainda não havia começado, quando um dos meus colegas de ocasião solta: “gente estou com fome, vou ali comer um pastel!” e sumiu. O show tem início com Asa de Águia (calma, não é esse o motivo de não comer sagu, se bem que poderia!!!) e a noite segue, até que o companheiro do pastel volta, com uma garrafa de São Tomé nas mãos faltando apenas um dedo para acabar, completamente embriagado e já trocando as devidas letras do alfabeto por dialetos indecifráveis. A medida que o show transcorria, notei que o amigo ia ficando cada vez menos animado, e sua mão começa a roçar na barriga, como se algo ali dentro quisesse sair. E não deu cinco minutos, a contenda aconteceu. Ele começou a contorcer o rosto e boca, quando dela saiu um líquido roxo, meio grosso, que até então não me vinha nada na cabeça ( apenas o porque eu não parei de olhar para aquela cena), até que um engraçadinho do meu lado lança: “nossa..que nojo, parece SAGU!!!”
Pronto, foi o suficiente pra eu marcar aquela cena e nunca mais ter chegado perto de um prato contendo a sobremesa (agora acho que vocês também não!!).

sábado, 9 de agosto de 2008

Retrato falado.


De Felipe Grilo.

Eis que alguém resolve queimar mais um indigente para dar brilho à noite sem estrelas. Clima de suspense e tensão na delegacia que vai apurar o caso. O culpado escapou. O mendigo, muito bem passado com essa história toda, estava dormindo bêbado antes do ato cruel e agora está em estado grave na UTI, vítima de queimaduras de terceiro grau. Antes de morrer, disse ao delegado que:

- Eu só vi o vulto de um cara magrelo e cabeçudo saindo da caixa e vindo todo aceso pra cima de mim. Daí ele caiu pra cima e.

O mendigo morreu. O delegado disse para a imprensa que iria cair em cima dos suspeitos. A imprensa disse para a opinião pública que iria cair em cima do delegado enquanto ele não caísse em cima dos suspeitos. A opinião pública disse que ia cair em cima do legislativo com suas passeatas. Daí você, caro colega, já pode ver o montinho da polêmica no final do horizonte para mostrar ao seu netinho, e contar para ele esta história que agora sou eu vou lhe contar.

Saiu tudo numa revista de circulação gratuita na região, mas como os fatos foram escassos e a notícia, uma notinha, todo mundo acompanhava a seção de cartas com mais afinco para entender o assunto que comoveu o país.

“Essa onda de violência precisa parar. O depoimento do indigente diz tudo o que a polícia precisa saber: foi um homem magro e cabeludo. Esperamos que o delegado consiga encontrá-lo entre vários suspeitos e aplicar a pena justa para crime tão hediondo.” (Zilda, dona-de-casa, por telefone).

“O cara de black power merece ser queimado é nas pregas!”(Tonhão, açougueiro, por berro na porta da redação).

“Nossos sentinelas aqui da comunidade viram um indivíduo andando com uma perua em alta velocidade por aí. Já que a polícia não faz nada, eles mesmos vão fazer esse maluco dormir apertadinho numa caixinha de madeira de verdade.” (M.Z.C., civil, por recado embaixo do travesseiro do editor).

“Claro que “dormir apertadinho na caixinha de madeira” foi um código dado pela milícia, assim como “fazer seu lanchinho” é o mesmo que esquartejar alguém e esconder o presunto picadinho em algum colchão. Analisando a mensagem: quem dorme na caixa, ou é sapato, ou é boneca. E boneca pra mim é travesti. A imprensa não diz, mas parto da teoria que os grupos minoritários transexuais, tão discriminados e desrespeitados, estão defendendo seus direitos na base da porrada.” (Pimentel, vigilante de rua, por rádio amador).

“Retiro o que disse: a perua NÃO merece levar queimada nas pregas!” (Tonhão, açougueiro, rindo na porta da redação).

“Durmir numa casa de madeira compensada de um único cômodo deve ser uma difícil situação socioeconômica, diria até desumana. A violência está se tornando não apenas banalizada, mas comum, utilizada como método de reagir a um sistema que não prioriza os direitos humanos e civis. Precisamos dar condições! Precisamos reavaliar!” (Zulmira, assistente social, por carta).

“Eu sabia que tinha favelado no meio. E mona, ainda por cima. E não deve ser uma só, não.” (Angélica, travesti, por SMS ao nosso editor).

“As habitações conjuntas são comuns na região. De fato, os transexuais aqui são praticamente tudo farinha no mesmo barraco.” (Solange, psicóloga, por e-mail).

“Esperamos que apertem o cerco contra os principais suspeitos, que o transexual e sua gangue sejam detidos, que esperem seu julgamento longe da sociedade e, caso se confirmem as denúncias do esconderijo de cocaína e outras drogas, que o recinto seja estourado.” (S.C, jornalista, por e-mail).

“Será que voltamos à época de Madame Satã? Conheceremos o ídolo do culto à violência de nossos tempos?” (Donizete Pinto Soares, sociólogo, por e-mail).

Enfim, suspeitos nunca foram detidos, o culpado nunca foi encontrado e a pauta da revista deu lugar a qualquer outra chacina. As chamas dos fatos jornalísticos se apagaram na pontinha do iceberg de infindáveis versões. Mas, no cume de uma montanha de lixo, longe da vista de todos, eis que aparece o real assassino descrito pelo falecido mendigo:

Moral da história: não forme sua opinião somente com base na opinião alheia. Procure se informar.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

TOP 10.

De Heloísa Noronha.

Você, leitor(a), com certeza já deve ter (no mínimo) ouvido falar do Almanaque Anos 80, livro divertido e rico em informações sobre uma das décadas mais cafonas da História. Lançado há cerca de três anos pela Ediouro, virou best-seller absoluto. Seus autores, os jornalistas Mariana Claudino e Luiz André Alzer e Mariana Claudino, estão de volta às livrarias com outra obra deliciosa: em Os 10 Mais – 250 Rankings que Todo Mundo Deveria Conhecer (Agir), a dupla investe na fórmula infalível das listinhas. São 250 listas – eleitas pelos dois e por celebridades como Zé do Caixão – sobre os mais diversos assuntos: cultura, música, esportes, lazer... Assim, além dessa dica de leitura, minha coluna dessa semana traz cinco listinhas que elaborei, muito pertinentes à minha pessoa. Quem quiser comentar e também inventar uma listinha, será muito bem-vindo(a). Aí vão meus Top 10, com itens que não estão, necessariamente, em ordem de preferência:

10 amores-ídolos-príncipes-encantados de infância/adolescência:
* King Kong (o do filme dos anos 70)
* O mocinho do filme Gremlins
* Éder, jogador da seleção brasileira de futebol de 1982
* Tarcísio Meira
* Jon Bon Jovi
* Slash
* Paulo Ricardo
* Steve Tyler
* Michael J. Fox
* Boy George

10 personagens que eu gostaria de ser:
* Pequena Miss Sunshine
* Beatrix Kiddo, de Kill Bill
* Mafalda
* Holly Golightly, de Bonequinha de Luxo
* Mulher Elástica
* Jerry, de Tom & Jerry
* Samara, de O Chamado
* Maga Patalógica
* A Bela Adormecida
* Norman Bates, de Psicose

10 coisas que me dão muito medo:
* Lagartixas
* Cachorros
* Rugas
* Velhinhas que puxam conversa em filas
* Extrato bancário
* Meus vizinhos
* Banheiro da firma
* Engordar a ponto de ser içada pelos bombeiros
* Exame de sangue
* São Paulo Fashion Week

10 músicas que eu acho que fazem parte da trilha sonora do inferno:
* You’re Beautiful, James Blunt
* Take My Breath Away, Berlin
* Dona, Roupa Nova
* Vitoriosa, Ivan Lins
* Desenho de Deus, Armandinho
* Canção da América, Milton Nascimento
* Come Back to Me, Janet Jackson
* La Bamba, Richie Valens
* Love Generation, Bob Sinclair
* I Will Survive, Gloria Gaynor

10 coisas bizarras que já vi ao vivo, em cores e, pior, de perto:
* Casa de sadomasoquismo
* Túmulo do Jim Morrison
* Acampamento de ciganos
* Daslu
* Galinhas em árvores
* Orfanato Raio de Luz da novela Chiquititas
* Roberto Carlos
* Sovaco peludo de uma alemã
* Show do Menudo
* Anão de moto (é, eu não consigo me livrar dessa lembrança!!)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Para os broncos.

De Adriana Hernandes.

Desde que o mundo é mundo a mulher é reverenciada em prosa e poesia por aí de uma forma muito bela, virtuosa etc. O que é justo, aliás, já que realmente somos seres iluminados, superiores e muito modestos também. Mas tudo o que é demais enjoa e, sinceramente, já está na hora de darmos o devido valor a uma espécie que já começa a entrar em extinção e continua sendo tão mal interpretada pelo universo (feminino, diga-se de passagem). OS BRONCOS!

Sim, os broncos. Indivíduos que falam com a boca cheia, usam meias furadas no dedão e acham que a louça da pia é magicamente limpa por alguma espécie leprechaum que aparece á meia-noite.

Vamos dar importância á esses homens!!

Façamos odes á essas criaturas que nunca reparam no que estamos vestindo. Pode ser uma calça Jeans e uma regata branca ou uma fantasia de Carmem Miranda, pra eles não há diferença.

Recitemos versos aos guerreiros Vikings que, munidos de infinita bravura e um chinelo Havaianas, arrasam aqueles demônios que insistem em aparecer em casa nos dias de calor. E com toda a modéstia do mundo ainda dizem: “Mas era só uma baratinha, meu bem”.

Escrevamos sonetos para esses verdadeiros titãs que conseguem abrir potes de palmitos e trocar o resistor do chuveiro com tamanha maestria.

Festejemos com eles mais uma vitória conquistada com sangue, suor e lágrimas no Street Figther ou Mortal Kombat.

Valorizemos seus esforços em aprender a bailar Valsa para tentar nos conduzir em nossas festas de debutantes. Mesmo sabendo que seus movimentos corporais se limitam à dancinha do Robô.

Admiremos a façanha de conseguirem decorar a escalação de times como Veranópolis e Asa de Arapiraca, e não lembrarem o dia do nosso aniversário.

Exaltemos a petulância deles em nos levar aos restaurantes mais polidos, e pedirem, na maior cara de pau, um copo de cerveja preta e uma picanha tão mal passada que ainda se ouve o mugido da vaca a cada garfada.

Apreciemos vossa teimosia em sempre dizer que pátina e drenagem linfática são pura frescura. (Isso, claro, depois de descobrirem o que são pátina e drenagem linfática).

Precisamos enaltecer esses ogros de gestos tão delicados quanto uma betoneira.

Os broncos também amam, gente. Embaixo daqueles peitos cabeludos também bate um coração. E por saber que no fundo, bem lá no fundo, no fundo meeesmo, são dotados de certa doçura, eles terão eternamente o meu carinho e minha admiração!

(Mas se eles pararem de deixar a toalha molhada em cima da cama, acabarem com os campeonatos de arroto e nunca mais coçarem o ouvido com a chave do carro, a gente agradece muito).

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Et Coetera.


De Cristiane Senn.


É que títulos em latim sempre deixam o texto mais bonito. Dá impressão de que se é um profundo conhecedor da língua e suas origens. E eu, como sempre, valorizo muito mais a forma do que o conteúdo - vício grave, que não me agrada, e para o qual não existe nenhum grupo de apoio.

É que meu sonho é um dia desses conseguir abstrair os conceitos de forma e/ou conteúdo. Acho a forma muito mais bacana, quando, sob o sol, evapora conteúdo, mas continua sendo forma acima de tudo. E isso não se resume às artes plásticas. Aliás, eu nem sei falar de artes plásticas. Elas provocam sensações, e não sei discorrer sobre sensações. Sou pragmática - vício grave, que não me agrada, e para o qual não existe nenhum grupo de apoio.

É que eu acho que as coisas em geral são muito mais simples do que se pensa. Um bolo de fubá é sempre um bolo de fubá. Mas se ele tiver a forma que o identifica como sendo um bolo de fubá, o conteúdo será apreciado com, pelo menos, mais seriedade. E ainda, se ele subverter a forma tradicional de bolo (e isso tiver algum tipo de propósito), será inclusive tratado com mais respeito. Mas isto foi apenas uma idéia que me ocorreu momentaneamente. No minuto seguinte farei uma parágrafo defendendo a antítese.

É que, pensando bem, as coisas são bem mais complicadas do que a gente costuma acreditar que elas são. Para um chef de cuisine, profundo conhecedor da língua e suas origens - no sentido gastronômico da coisa -, a forma do bolo e o conteúdo do bolo precisam estar em pleno equilíbrio, porque a gastronomia é a arte das sensações visuais e gustativas e sociais e sexuais e intestinais e 'et coetera' e tal. Isso não explica absolutamente nada, mas achei uma frase boa o suficiente para se sobrepor à minha crise criativa.

É que, quando me preocupo com o conteúdo, meu texto assemelha-se ao de uma criança de sete anos. Adoro textos de crianças de sete anos e tenho certeza de que você também, embora nunca paremos para pensar sobre. Mas quando se tem mais de 20, não se pode escrever como uma criança de sete, a não ser que se adote a forma do texto infantil com algum propósito, assim, cheio de conteúdo.

Enfim, 392 palavras depois (acabei de descobrir um recurso de contagem no word), não consigo encontrar um sentido pra nada disso. Mas não me abalo pois, mesmo que o achasse, concordo com Leminski quando diz que "o sentido é a entidade mais misteriosa do universo".

É que quando você não consegue terminar um texto, citação é a salvação.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Conto das manhãs azuis.

De Vinícius Noronha.

Éramos quatro, e quase sempre um. Todas as manhãs eram azuis conforme nossos olhos confrontavam as novidades de mais um dia como qualquer outro, como nenhum.
Eu era o mais falante, o que lidava melhor com as situações inusitadas com as quais sempre deparávamos. Já fiz tanta madame comprar leite sem rótulo, e vilões de seriados nos perdoarem as vidraças quebradas, que perdi a conta.
Havia o problemático, que nenhuma mãe queria como companhia pro seu filho. Ah quanta falta de percepção, se soubessem o sangue que esse rapaz já deu pelo resto de nós... Hoje dou uma risada abafada relembrando esse descaso, mas na época era complicado amenizar isso. Bem... Na verdade deixávamos ele jogar como meia-direita e tudo voltava à estaca zero.
- Não vá se sujar!!!!
Mas que alienígena não se sujaria na prova mais disputada das Olimpíadas?? É claro que ele se sujou, se chafurdou na lama como um animal sem dono, e não suficiente ainda contribuiu para a imundice dos demais. Esse de quem falo agora era o mais ativo, fazia pontes das pernas dos transeuntes, e autódromos do pavimento da rua sem saída. Não era pra menos: era adorado por demais. Quanta criatividade...
- Que tal se as mesas fossem grandes dinossauros? Laçarei todos com meu cadarço de alcance infinito!
- Está nascendo um terceiro braço em mim. Quando ele crescer, vou poder nadar mais rápido que um tubarão.
- Quando eu morrer, daqui uns quinhentos anos, vou prum lugar só com carros de corrida pra eu pilotar até enjoar. Bom... E quando eu enjoar eu venho visitar vocês e assombrar seus filhos... haha
E quem disse que não acreditávamos? Tudo o que ele dizia, cumpria no ato. E eu sempre era o primeiro a apertar a sua mão a cada tarefa impossível que ele nos trazia encharcado de suor e lágrimas.
Mas tinha um de nós que nunca acreditava nele. Na verdade, não acreditava em nada. Nem nos sorrisos, nem nos presentes de Natal, nem nas pipas que ficavam para sempre lá, coladas no céu, mesmo ao anoitecer.
Aos olhos de sua desconfiança, os atos heróicos dos demais eram revistos, redecorados, e se tornavam banais. Mas isso não era ruim, alimentava nosso ímpeto de mais, pois tínhamos que superar cada aventura de minutos atrás como se elas nunca houvessem existido. Ele fazia esse favor, nos tirava do teto de volta pro piso, cortava nossas asas e ainda pregava nossos pés.
E assim seguíamos com planos da conquista do bairro, ou ao menos das garotas do fim da rua, sempre as mais requisitadas. Eu, de costume, era o porta-voz dos recadinhos esdrúxulos que escrevíamos em conjunto, em favor do outro que não conseguia raciocinar direito só de pensar em sua musa.
Muitas vezes deu certo, muitas vezes não. Mas não me lembro de ninguém ter saído gravemente machucado dessas brincadeiras de lábios que timidamente se tocaram ou de rejeições em aniversários alheios.
Não visito essa rua há mais ou menos 40 anos. Mudou de nome, o pavimento foi trocado, e agora ela tem uma saída pra uma enorme avenida onde é impossível imaginar que nossos feitos poderão ser repetidos.
Hoje o sol desaparece no firmamento de sopetão. As estrelas dão a impressão de estarem mais ausentes uma das outras. E as manhãs que chegam me mostram um tom diferente, mas não sei explicar exatamente se mais escuro ou mais claro.
Todos seguimos em nossas vidas com desvios ao longo de todo o percurso, e as notícias que chegam em pombos-correios bêbados me dão vontade de gritar. Ou de sumir.
Mas até hoje, depois de crescidos, meus filhos não entendem porque eu sorrio toda vez que comentam de uma sensação estranha, porém reconfortante, que sentem antes de dormir.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Ao mestre, com carinho.

De Sergio Faria.

Cada dia que passa me convenço mais de que sou um péssimo professor de música. Não pelos meus alunos não desenvolverem no seu instrumento por culpa de uma didática fraca. Não é isso que acontece. O problema é que, na maioria das vezes, criamos um vínculo e as aulas passam a ser um delicioso bate papo ou uma troca de confidências que deixaria muita comadre com inveja. Talvez por eu ser um cara desencanado, que fala pelos cotovelos (e muitas vezes acaba sendo inconveniente ou indiscreto), que se expõe de uma forma que a maioria das pessoas evita pelo pudor ou falta de confiança, eu consiga cativar esse povo e arrancar deles coisas que acredito que não compartilhem nem com os pais ou cônjuges. É verdade! Já ouvi cada coisa, de me deixar até sem graça. É claro que eu disfarço e assim a figura fica a vontade e continua contando os seus podres. Mas o que gosto mesmo, independente da idade ou gosto musical, é daquelas pessoas transparentes, autênticas, tranquilas, sensíveis... Me interesso por elas, pelas suas vidas, e muitas delas percebem isso. E quando isso acontece, viram amigas mesmo. Muitos alunos que passaram por aqui não perdem contato. Ligam no meu aniversário, no natal, no ano novo... É muito gostoso. Já tive que aturar muitos pentelhos e esquisitões mas felizmente a maioria é gente boa. Algumas pessoas brincam comigo dizendo que eu tô mais pra psicólogo do que pra professor de música. Talvez eles tenham razão. Lendo um artigo sobre educação num dias desses, conclui que o meu modo de ser e trabalhar é "o que há" e vai de encontro com as idéias do psicólogo Carl Rogers, grande pensador citado no tal artigo. Esse norte-americano desenvolveu uma teoria de que o papel do professor se assemelha ao do terapeuta, e o do aluno, ao do cliente, ou seja, um professor que se comporta como um terapeuta facilita o processo de aprendizado por deixar o aluno a vontade pra aprender do jeito que quiser. Talvez isso explique o êxito que tenho com aqueles alunos que querem aprender: mesmo sem ser um professor conservador e "sargentão", mesmo com todo meu desleixo em aulas que às vezes mais parecem conversas de botequim onde putaria é o assunto principal, a rapaziada consegue me surpreender ao tocar bem mais do que eu havia passado. Funciona. Mas tem momentos que fico sem jeito e acho que não tô sendo profissional. O aluno se empolga com o papo e eu tenho que interromper pra lhe passar alguma coisa. Alguns não cobram as lições e outros nem querem. Preferem ouvir meu ponto de vista sobre um determinado assunto, desabafar contando os seus problemas ou me pedir conselhos! É um barato! E como ainda resta dentro de mim um pouquinho daquela coisa adolescente de querer mudar o mundo (ou pelo menos a vida do vizinho), eu acabo me envolvendo. Rolam vários sentimentos: respeito, angústia, carinho, preocupação, mágoa, tristeza e até paixão. Nessa brincadeira até já me apaixonei. Mas nesse caso, como a coisa só pode ficar na teoria (prática só no instrumento), nessas horas quem se fode é o titio aqui que fica malzão e não tem um irmão mais velho ou um professor metido a psicólogo pra conversar, chorar as pitangas e pedir ajuda. Sobra pra quem? Pra outros alunos, ora bolas.

domingo, 3 de agosto de 2008

Não me chama que eu não vou.

De Daniel Ramos.

Para as pessoas do meu convívio, não é segredo que determinadas atividades eu não realizo nem sob tortura da inquisição. Mas como recentemente aderi a esse blog, pretendo deixar bem claro para os futuros leitores que nem adianta gastar saliva ao tentar me convencer a praticar determinadas atividades, e que vocês podem perceber pelos meus argumentos abaixo que eu tenho lá minha razão.

Programa 1:
Festa junina de escola infantil

A não ser que eu esteja flertando com alguma professorinha da instituição, não tem coisa que eu ache mais insuportável do que festinha em pré-escola. Sim, eu amo criança, mas não quando as submetem ao ridículo de dançar naquelas fantasias, com aquelas coreografias... E o pior: pra alguns sempre acaba sobrando dançar com a menina mais feia da sala (ou, em alguns casos, como eu, que na primeira série tive que dançar com um MENINO, por pura falta de quorum pra participar da quadrilha... Dá pra ver por que realmente não curto esse troço!!). Aquelas coreografias que a maioria delas não decora, a professora se estressa, o pai geralmente filma pra mostrar em futuras reuniões de família ou pro namorado e todo mundo acaba aplaudindo mais por educação do que por outra coisa. Sempre tem a tradicional rifa, com prêmios exorbitantes como um ralador de queijo, um jogo de canecas de plástico que ninguém nunca vai usar de tão horrível, aquelas bolas de plástico que furam no primeiro chute ou na primeira unha do dedão fora do lugar... Enfim, por essas e outras razões, se tiver uma festinha dessas “NÃO ME CHAMA QUE EU NÃO VOU!!!”

Programa 2:
Academia

Gente, por favor, eu não conquistei esse meu físico de campeão universitário de truco à toa. Foram anos de muito vídeo-game, Mcdonalds e cerveja, geralmente todos juntos, então por aí da pra ver a margem de estrago feita. Eu costumo dizer que eu e academia somos como vampiro e igreja, sendo que eu posso me denominar o Conde Drácula do sedentarismo. Nas poucas vezes em que freqüentei esse antro do culto a imagem, o máximo que consegui foi uma lordose que ainda dói quando chove. Suplemento alimentar pra mim é água benta, bicicleta ergométrica é como se fosse uma dúzia de camponeses furiosos me perseguindo com tochas e o logo da Nike como se fosso uma grande cruz de caravaca. Portanto, já deixei bem claro, que academia “NÃO ME CHAMA QUE EU NÃO VOU!!!”

Programa 3:
Balada

Bom, essa já é clássica e quem me conhece sabe o quanto eu odeio esse antro, a qual comumente costumo chamar de “fogueira de vaidades”. Não se preocupem, não vou ficar aqui enumerando as mil e duas razões pelas quais eu realmente não suporto balada, só posso dizer que me sinto um peixe fora d’água, mas acho que até ele sofre menos, por que não tem que agüentar aquele cheiro de Gudang Garam de canela, que adolescente acha que é maconha e nem tem que esperar na fila do banheiro enquanto algum idiota vomita o “esquenta” que ele fez na casa de um amigo (sim eu já fui um desses idiotas). Tampouco fica duas horas e meia na fila pra pagar a maldita consumação, enquanto o segurança passa na sua frente o vagabundo que pagou o camarote e encheu aquilo de prostitutas. Então, pense bem antes de me convidar para uma dessas, por que geralmente a resposta é “NÃO ME CHAMA QUE EU NÃO VOU!!”.

Programa 4:
Missa em igreja católica

Calma gente, calma, eu sei que falar isso num país de maioria católica é pedir pra ser esquartejado moral e fisicamente, mas vamos falar sério por um minuto: você que se diz católico, o faz pelos preceitos da religião ou por puro comodismo de escolher outro culto e ser taxado de herege? Por que cá pra nós não tem coisa mais chata que missa em igreja católica: é a mesma coisa a setecentos anos e ninguém faz nada pra mudar. Tá, de vez em quando aparece um Marcelo Rossi da vida, mas ele mesmo não é bem aceito pela parcela mais conservadora da igreja. E aquele “senta e levanta” que eu nunca consigo entender: o padre fala, todo mundo responde, todo mundo levanta, se ajoelha, senta... Porra, aquilo é mais coreografado que show do Asa de Águia! E sem contar aquela hóstia, que por não ter feito primeira comunhão nunca me deixaram comer, e vocês sabem que tudo que é proibido aguça ainda mais a curiosidade... Se você soubesse a “tara” que eu tenho de comer um punhado daquilo coberto de ketchup e tomando coca-cola... Aiaiaiai. Bom, mas tirando isso, agora vocês já sabem que em se tratando de missa “NÃO ME CHAMA QUE EU NÃO VOU!”

sábado, 2 de agosto de 2008

Contar vantagem.

De Felipe Grilo.

Talvez seja porque eu venho de uma área tida como glamourosa - a publicidade - que botei reparo nisso. Ou por ter estudado o assunto em algum livro sobre ideologia em comunicação, assunto pelo qual me interesso. Ou por ter lido em alguma revista uma crônica de autor conceituado que, tendo me inspirado de tal forma, me fez guardar o assunto na mente para depois comentá-lo e, quem sabe, fazer você reparar também. Seja qual for a fonte desta minha impressão, ei-la para sua edificante reflexão: de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, todas as pessoas contam vantagem. Como sou um cronista habilidoso (o que vocês poderão averiguar no profile escrito neste mesmo blog), de propósito, elaborei este primeiro parágrafo para provar a vocês que minha tese é verossímil. Fui claro?

Brincadeira, gente. Brincadeira que tem um fundinho de verdade. Achava que esse negócio de egocentrismo era problema de publicitário criado pela avó. Mas talvez não: percebe como, sem querer, em pequenas ações podemos contar vantagem ou, pelo menos, interpretar uma frase inocente como tal?

Vejamos em situações do dia-a-dia. Pense num churrasco com a família ou os amigos. Oferecem bebida, certo? Daí você diz se quer ou não. Se você faz questão de dizer que é um pé-de-cana inveterado e comprova isso fazendo uma muralha com dezenas de latinhas de cerveja, significa que a) gosta de ser o chamariz da festa e de aparecer no youtube, ou b) isso prova sua superioridade perante os outros convidados, uma vez que encara riscos maiores de passar mal à beça, pagar vexame de corno ou arranjar briga. Se você diz que bebe socialmente e pede dois dedinhos de qualquer coisa, é chique: entra álcool pela boca, saem mais verdades – ou vantagens - por ela e torna-se alguém agradável, diferente daquele babaca que ficou bêbado e só enche o saco. E se diz que não bebe já agradecendo o que não quer, também sem querer atesta que é uma pessoa saudável, que de "alto" basta seu código de conduta, e que não se iguala aos imundos a volta, mas diverte-se vendo o inferninho na mais ilibada sobriedade. E seu carro vira lotação no final da festa. Na minha opinião, nenhuma das três opções são lá grande coisa para contar vantagem.

Outro exemplo, este comentado por cima pelo Vini, no texto dele desta semana, é sobre leitura. O que você lê? Ah, leio as crônicas do Mainardi na Veja e uns sites legais (para abastecer meu repertório de expressões engraçadinhas e fazer sucesso na minha roda de amigos intelectuais). Bem, eu costumo ler mais romances, não gosto de livros técnicos (deixo apostilas e manuais para os peões que não sabem apreciar uma boa narrativa). Ah, leio mais livros filosóficos (nunca digo que são de auto-ajuda porque sempre fui auto-suficiente, agora me basta refletir sobre os temas mais profundos do pensamento humano). Não tenho muito tempo para leituras mais longas, me atualizo com notícias, principalmente na internet (só idiotas perdem tempo com abstrações literárias: estou sempre atento ao que me cerca e avalio cada informação de forma estratégica em minha vida). Leio só meu e-mail (sou pop, todo mundo se lembra de mim). Leio inutilidades (sou nerd: o que é útil para mim é inútil para você e vice-versa).

Para filme, música, hobbie, tudo igual. Conhecido meu, não contente em contar o enredo do filme que eu ainda não vira (opa: "vira", pretérito mais-que-perfeito do verbo "ver", cuja classificação diz tudo), analisava roteiro, fotografia, trilha sonora e dizia se concordava ou não com a classificação da Veja São Paulo. Chamar Caetano Veloso de Caetano e Chico Buarque de Chico faz a gente parecer mais íntimo da MPB, assim como citar inúmeros nomes de bandas ou estilos de rock que gosta faz da gente mais roqueiro. Quanto aos hobbies, ser excêntrico também é contar vantagem e dá cada vez mais certo. Emos que o digam.

Onde menos faltam situações é no universo feminino, no qual as comparações são constantes, indo desde o novo corte de cabelo até o novo namorado. Por nunca se querer passar recibo de perdedora, há também muita falsidade (meninas, me corrijam se estiver errado). Se ficar encalhada, é melhor dizer que curte a vida de solteira.

Filantropia é outra coisa que me chama atenção: por que ajudar os "mais necessitados"? A resposta mais comum é "porque me faz bem!". Ou quem sabe, por um efeito inconsciente de comparação, ajudá-los faz da gente "menos necessitado"? Ou ainda, quem sabe, o ato nos transforma em "uma pessoa melhor"? Afinal, quando doamos sangue ou qualquer coisa útil à vida do próximo, porque ganhamos adesivos e broches em troca? Para exibir a todos nosso feito benevolente?

E por aí vai. Já que o exibicionismo não apenas está em alta na sociedade atual, mas é inerente ao ser humano, fica uma pergunta na cabeça e que vocês me ajudarão a responder.

Por que, com tudo isso, se idolatra tanto a humildade e a modéstia?

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O saco dos outros.

De Heloísa Noronha.

Existem defeitos que considero toleráveis. A própria intolerância, por exemplo. Onde é que está escrito que a gente deve gostar de tudo e suportar qualquer coisa? Ninguém é obrigado a isso, certo? Mas, veja bem, não estou falando de ser preconceituoso. Isso é beeem diferente. Falta de organização, chatice, estupidez e burrice têm, dependendo do(a) dono(a), uma certa dose de charme. Há um defeito, porém, que acho o pior de todos, o cúmulo, o fim da cadeia alimentar MESMO: puxasaquismo. Ser pobre de espírito, ok; ser chato(a), ok; ser feio(a), ok... Mas ser puxa saco é cafona, brega, caipira, e ainda indica um caráter duvidoso, de uma pessoa pouco confiável.
Como um dos meus defeitos é a extrema falta de tolerância (e, por conseqüência, de paciência), imaginem a tortura que é conviver com gente assim. O ambiente de trabalho é o lugar preferido para esses tipos se proliferarem. Como trabalho há quase 20 anos, calculem a quantidade de baba ovos que eu já conheci. Em alguns momentos da minha carreira, confesso que já questionei se devia ou não me esforçar um pouquinho para me inspirar nesses seres e também me tornar uma puxa saco. Isso porque, à primeira vista, o puxa saco sempre passa a imagem de um funcionário bem-sucedido, não é mesmo? Afinal, como um chefe poderia não tratar bem alguém que está sempre ali, a postos para paparicá-lo? Que MBA ou pós-graduação que nada! A subserviência, em muitos casos, é o caminho mais rápido para conquistar um aumento de salário ou um cargo mais alto. E os leitores machos que me perdoem, mas as mulheres são insuperáveis no quesito puxasaquismo. Como o sexo feminino já é dotado de um sexto sentido básico e uma sensibilidade nata para captar as necessidades alheias, muitas se aproveitam disso para agradar a chefia justamente em seus pontos mais fracos: tecendo um elogio certeiro, fazendo um comentário espirituoso, oferecendo o ombro para desabafos pessoais... Além disso, existe o típico poder de sedução feminino. Nem estou falando de cama ou teste do sofá, a sedução, aqui, passa pelas palavras, pelas sutilezas do dia-a-dia, pelas aparências.
Enfim, várias vezes me perguntei se devia apelar para esses subterfúgios para me dar bem – e a resposta sempre foi não. Mesmo se quisesse, acho que nem conseguiria. Tenho personalidade e estômago de sobra para me rebaixar e apelar para fingimentos e falsidades. Jamais bajularia uma pessoa que considero babaca e incompetente para conseguir subir na vida. E aos bons profissionais que conheci, preferi dedicar algo que considero muito valioso: minha observação. Já atravessei as mais diversas fases na minha carreira, já estive bem, já estive mal, já chefiei, já fui subordinada. E em toda essa trajetória, sempre fui eu mesma, e tudo o que tenho ou tive, foi mérito meu. Por mais competente que o puxa saco seja, lamber as botas alheias soa como uma atitude desesperada, de quem precisa se escorar em alguém para sobreviver. Deve consumir uma energia desgraçada perder tempo ensaiando que elogio fazer, que idéia mirabolante apresentar, que sorrisinho falso mostrar... E isso tudo, é claro, sem que o resto da equipe perceba – todo puxa saco é meio ingênuo, pois acredita piamente que ninguém repara na palhaçada que ele faz. Pior: se esquece de que emprego nenhum no mundo oferece garantias de ser eterno. Ou seja, todo o esforço desse tipo de gente pode dar... em nada. Mesmo porque, muitos chefes se aproveitam da bajulação apenas enquanto ela é conveniente. O problema é que superiores vaidosos também só enxergam o que é conveniente, subestimando funcionários realmente competentes, bons, aplicados, inteligentes – que, mais cedo ou mais tarde, podem levar suas qualidades para outra empresa.Para finalizar, pensei bem e cheguei à conclusão de que já puxei muito o saco de alguém, sim: o MEU. E continuo puxando. Quando me sinto desestimulada, é para mim mesma que digo: “Calma, Helô. Você é capaz, está apenas atravessando uma fase ruim. Vai dar tudo certo!”. Ou, quando faço algo de que me orgulho: “Parabéns! Ótima idéia!”. E também “Não desanime...”, “Esfria a cabeça!”, “Tenha paciência!”, “Você sabe o seu valor..”, etc. Para onde quero ir, só eu mesma posso me levar. E quero ir sozinha, por mérito meu, não de carona pendurada no saco de alguém.